food, art & spirits

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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

cenas de um exagero

Uns buscam a simplificação, a síntese, a redução. Roberta Sudbrack caminha por uma trilha de elegância e sabores, com pratos de poucos ingredientes executados com maestria. Um de meus restaurantes preferidos em São Paulo, o Arturito (da grande Paola Carosella) oferece em seus domínios uma cozinha de excelência - tudo perfeitamente cozido ou grelhado no ponto mais do que certo, porções de tamanho ideal, e sabores que explodem de simplicidade extraída da perfeição. Mas existe um outro lado, que ainda insiste na mistura de elementos para compor um prato, onde teoricamente não poderia faltar algo ácido, algo adocicado e algo crocante. Em primeiro lugar - quem foi que teceu esta máxima de que estes elementos são fundamentais para uma receita? E em segundo lugar - já perceberam nas nomenclaturas dos pratos oferecidos? E tome "confit de pato em sua própria gordura (existe outro meio?), deitado em berço de baby leaves com redução de porto, poeira de barriga de porco e pérolas de tapioca" - só de ler o título do prato já me deu sono. Fora que um prato com poeira e pérolas já me deixa tenso.
Mas recentemente, graças a um amigo, conheci o cardápio abaixo.
Primeiro, o capítulo "Gourmet". Esta "gourmetização" já está chegando às raias do exagero. Ainda me soa na lembrança o livro de Miojo Gourmet - nada contra o processo de "sofisticação" de um prato instantâneo, isto é puro exercício de gestão de marca - mas "gourmetizar" o Miojo é triste. Temos hamburguer gourmet, brigadeiro gourmet, pudim de leite gourmet, e - no caso acima - Pizzas Gourmet.
Segundo - imagine a gororoba. Uma pizza com 1001 notas de sabor! Queijos - sim, queijos, no plural -misturados ao molho de tomate, com linguiça, couscous marroquino com tâmaras e Chanchlich...Ou então, uma que, sob uma chuva de Ervas de Provence (adoro a imagem...) e traços de molho barbecue de goiaba (ou Bar-B-Que, como grafado -argh!!!!!!), o feliz comensal pode encontrar alho poró puxado no vinho branco, amêndoas laminadas, atum grelhado e queijo holandês. É literalmente um X-Tudo, e o atum não merecia este fim tão indigno.
Num boteco aqui em Recife, onde me encontro novamente, encontro "Peixe ao molho de al caparras (ai...), creme de leite e catchup gratinado com queijo manteiga". Droga, gourmetizaram o botequim também! 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

eles não comem pastel

Escrevo este sob o impacto do espetáculo que vi ontem - Alvin Ailey American Dance. Já vi esta companhia várias vezes, mais do que posso me lembrar, menos do que gostaria. Considero o ballet contemporâneo (o clássico eu não tenho muita paciência, confesso) uma das expressões artísticas mais completas que conheço. Em se considerando a hipótese de uma máquina do tempo, iria direto para a década de 1920 Diaghilev & Les Ballets Russes, época em que Coco Chanel fazia os figurinos, Stravinsky a música, Jean Cocteau, Picasso e Matisse os cenários e Nijinski flutuava em cena - e por aí vai. (Também daria um pulo nas décadas de 1940/1950 para ver Billie Holiday ao vivo, mas isto é para outro post.)
Em New York, sou fã de carteirinha do Joyce Theater, e sempre que estou nesta cidade é uma de minhas primeiras paradas - sempre consigo ver bons ou excelentes espetáculos, e por preços as vezes irrisórios. Um país que tem sessões de ballet à tarde a preços populares tem claras intenções para com a cultura - o que não é o caso do Brasil, infelizmente.
Alvin Ailey é uma companhia vibrante, sensual, com programas claramente politizados - e tudo excepcionalmente bem executado. Ainda acho a platéia brasileira econômica em aplausos neste tipo de programa,e  a impressão que tenho é que se fosse qualquer cantora de axé ou alguma nulidade neo-sertaneja e a casa viria abaixo. Mas...
Voltando. Alvin Ailey é uma companhia que dá prazer. Não apenas o prazer visual - nisto Momix e Pillobolus são mestres. Não somente o prazer da qualidade da coreografia e do corpo de ballet, mas uma junção inexplicável de força, sexualidade, lirismo e empatia. 

(essa coreografia, Minus 16, era simplesmente arrebatadora)
O local do espetáculo ontem decididamente não ajudava, uma verdadeira vergonha expor uma companhia deste quilate a este tipo de arquitetura. Nosso Museu Municipal seria o local perfeito, mas o calendário desta casa é bissexto em todos os sentidos - tanto na qualidade quanto na frequência. O equivalente a esta situação seria servir o excelente foie-gras de Erick Jacquin na feira da praça Benedito Calixto aos sábados, entre o cheiro do acarajé frito e a fumaça da barraca do pastel. 
E falando em pastel - caloria que provavelmente os corpos dos bailarinos desta companhia nunca viram - ontem foi dia de pastel aqui em casa. Mas não aquela coisa imensa, cheia de espaço desocupado dentro de suas paredes, e sim a versão pernambucana deste, com carne moída bastante temperada, frito em óleo de girassol e polvilhado com açúcar. Uma fina iguaria, assim como o espetáculo de ontem. Apenas mais calórica.
Pastel de Carne Pernambucano
300 gramas de patinho moído
1 cebola finamente picada
3 dentes de alho finamente picados
1 colher de café de cominho 
1 pimenta dedo-de-moça
1/2 pimentão verde pequeno finamente picado
50 gramas de azeitonas verdes sem caroço
1 tomate sem pele nem sementes
1 colher de sopa de cebolinha picada
1 colher de sopa de salsinha picada
Refogar a cebola até murchar. Adicionar o alho e a pimenta picadinha sem as sementes (estas deixam muito mais ardido). Acrescentar a carne moída, mexer até que toda ela adquira cor. Acrescentar o tomate, o pimentão e as azeitonas, continuar mexendo. Coloque sal a gosto e pimenta do reino moída. Deixar em fogo baixo, acrescentar o cominho, a cebolinha e a salsinha. Corrija o sal se necessário, desligue e espere esfriar para rechear os pastéis. 
A massa de pastel eu uso esta DAQUI, da Akemi, uma blogueira com receitas fantásticas. E ela é daquelas que usa cachaça na massa - outra coisa que seguramente os bailarinos do AAAD não consomem...
Recortar a massa em círculos de aproximadamente 10 cm de diâmetro. Rechear, fechar as pontas e marcar com um garfo. Depois de recheados, fritar em abundante óleo quente - com cuidado para não queimar a massa. Colocar no papel absorvente e polvilhar açúcar com uma peneira. Sirva com um potinho de pimenta ao lado.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

palavras - ou almoçando fora

Estava em Recife semana passada, em um bar à beira-mar. O mar a frente era uma faixa negra junto a um céu negro, quando comecei a escrever este post. A trilha sonora do lugar era absolutamente insólita - já havia tocado Janis Joplin em uma interpretação "samba" (como conseguiram?), uma versão também pandeiro e violão de um rock de Raul Seixas, um assassinato de I Feel Good com cuíca e cavaquinho e mais uma montanha de gente estranha em versões idem. Mas em minha cabeça ecoava uma frase de Alceu Valença, que diz "lembro o flamboyant vermelho no desmantelo da tarde...". Pode ser mais bonito? Chico Buarque é outro que me irrita, com o uso de palavras lindas e inusitadas em seus versos perfeitos. Ou meu deus particular, Gilberto Gil (...eu quisera ter tantos anos-luz quantos fosse precisar, para cruzar o túnel do tempo do seu olhar...), em suas imagens de inigualável teor poético. Um poeta, escritor ou compositor de fato tem que ter o domínio de sua língua, como estes mestres. E saber como e quando usar palavras como quebranto, centelha, colo, corsário, clarear, vagarosa, impoluto, retilínea, benzedeira, elegia - e mais um infinito universo de palavras belas. 
Uma semana depois, estou em casa na minha cozinha negra como aquele céu, mas com um sol brilhando lá fora. Ouvia Cole Porter e lembrei daquela situação - Cole é outro daqueles mestres em construir frases perfeitamente inusitadas ("...even lazy jellyfish do it...) ou imagens quase fotográficas ("only you beneath the moon or under the sun...") em suas músicas. Da mesma forma, alguns chefs dominam seu vocabulário - no caso os ingredientes - e constroem pratos fantásticos, originais, únicos. Admiro quem consegue utilizar barba de milho numa receita construindo um prato singular e perfeito, assim como Chico fez utilizando proparoxítonas para terminar todas as frases da linda Construção, de tal forma perfeitas que podem ser substituídas ao longo da letra sem prejuízo da poesia. Mas nem sempre precisamos de palavras complexas para construir frases lindas como esta,
 Carlos Drummond de Andrade
ou de ingredientes sofisticadíssimos e técnicas de cocção complexas para o prato perfeito. E hoje neste dia solar, repeti "de lembrança" uma receita de Chicken Salad que experimentara há muito, em Nova York, e ela ficou à altura da original, apesar de minhas liberdades com os ingredientes. Um Pinot Grigio gelado e o dia claro me inspiraram a levar o almoço para o terraço, levando o termo "almoçar fora" a uma literal interpretação.


Enquanto terminávamos o segundo prato - uma pasta com legumes grelhados,

ao fundo, Maverick Sabre 

derramava sua voz estranha em versos simples, palavras simples, e a tarde lentamente se deixa seduzir pelas cores da noite, exibindo um céu em tons de verde-malva, magenta,  carmesim e uma fina faixa azul-cerúleo. Um céu feito de belas palavras.
Chicken potato salad (para 2 pessoas)
meio peito de frango cozido e desfiado
200 gramas de batata bolinha
1 cebola grande
1 alho poró
8 azeitonas verdes picadas grosseiramente
1 punhado de salsinha picada
1 colher de sopa de coalhada seca
azeite a gosto
1 colher de sopa de raspas de limão
1 colher de chá de mostarda
1 colher de chá de suco de limão
Corte as batatas ao meio e cozinhe com casca, não deixando extremamente cozidas. Pique o alho poró em fatias finas, coloque num bowl e adicione as batatas cozidas ainda quentes. Enquanto isto, refogue a cebola em azeite até quase queimar. Misture a coalhada, o suco de limão, a mostarda, pimenta do reino moída e azeite. Adicione este molho às batatas, acrescente os ingredientes restantes, misture e sirva ainda ligeiramente morno.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

ventanias

O vento sopra insistente, insistente demais para o meu gosto. Claro que eu podia ter optado por sentar na parte interna do restaurante, resguardada, mas decidi ficar na varanda, sentindo o cheiro da maresia e ansiando pelo surgimento da lua neste começo de noite escura. As palmeiras balançam sob esta ventania, e nenhuma estrela ainda apareceu no céu.
A caipirinha está muito bem feita. Cachaça local, um tantinho de açúcar, desce mais fácil do que deveria - o que pressupõe uma sequência, coisa que não estava em meus planos hoje.
Chegaram os pastéis - pequenos, delicados - de bacalhau. Acompanha uma desnecessária - porque mal executada - tapenade de azeitonas pretas. Pelo fato de ser uma receita simples (e que pessoalmente executo com imodesta maestria), me incomodo um pouco, mas não o suficiente para atrapalhar este lonely happy hour. Para os pastéis, um tico de pimenta faria uma brutal diferença, mas tem gente que gosta, tem gente que não gosta, portanto...

A lua, preguiçosa, ainda não deu sinal de sua presença. Ou será que ela apareceu e eu estou olhando para o lado errado? Nenhuma estrela no negro celeste, e o vento insiste em ser presença dominante. O vento é um macho alfa, concluo.
As pessoas à minha volta falam um pouco alto demais para o meu gosto, mas é característica local, vozes exacerbadas, cujo combustível são garrafas de whisky Red Label, fazendo desta capital a maior consumidora deste destilado no Brasil.
A segunda caipirinha chegou, e por sorte não está tão boa quanto a primeira O que me deixa tentado a experimentar uma terceira, para ver se foi sorte ou se o o barman é realmente talentoso. Essa minha predileção pelos números ímpares ainda vai me causar uma cirrose...
Mesclado aos sons da rua, uma deliciosa versão new something de de Ella Fitzgerald invade a varanda - aleluia, ligaram o som. Não sei quem remixou sua gravação de Angel Eyes, mas ficou...wow!
Uma menina, pobre figura, acompanhada de um gringo de visual decadente, ambos sentados à minha frente, se oferece acintosamente para mim. Triste figura, tristes trópicos...
Começa a tocar Everything But The Girl, uma música que me é especial.

Não vejo a hora de voltar para casa.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

italianices

Chegando muito cedo no aeroporto de Recife - eu saíra de casa de madrugada para pegar um voo às 06h40m, portanto não tinha tomado nem um cafezinho, sequer um iogurte. Estava faminto - a primeira refeição me é muito cara, acordo com uma fome ancestral, e a falta dela me deixava com uma ligeira dor de cabeça. Decidi tomar um café ali mesmo, no Café São Braz, que tem um bolo de milho muito bom. 
No balcão, a atendente anota meu pedido com imensas, quase apoacalípticas unhas verde-amarelas. Logo cedo...

- Bom dia, por favor, um café com leite grande e um pedaço de bolo de milho.
- O senhor quer um espumone grande, é?
- Uhn...?
- O senhor quer um espumone grande, é? (falando mais alto, afim de que eu realmente entendesse o que ela estava falando).
- Não, eu quero um café com leite grande e um pedaço de...
- Aqui café com leite é espumone, sabia não? 
- Não, eu não sabia. Se você me garante que este espumone é um café com leite comum, eu aceito.
- É sim, só que em italiano.
- Uhn...?
- Espumone é café com leite em italiano (novamente com um aumento de decibéis, como que para compensar minha cara de lesado dependente de cafeína com claros sinais de abstinência).
- Olha, eu não sei quem te falou isto, e eu acredito que você foi treinada para acreditar, mas decididamente não é italiano.
- É sim, é por causa da espuma do leite.
- Spumone é uma sobremesa italiana feita de 3 ou mais camadas de sorvete, as vezes com frutas cristalizadas ou castanhas, pistache, etc. - o que aqui no Brasil gerou um primo mais pobrezinho, que costumam chamar de Napolitano. Mas nunca foi café com leite, acredite em mim.
- KERRYANNE (berro que ecoou pelo saguão do aeroporto), pelamordasanta, atende este homem aqui que hoje eu não estou com paciência!
(foto do il vero spumone italiano) 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

the cheese is on the table

Mini divagação 
no cardápio:
entradas e petiscos
- queijo de coalho na brasa com mel de engenho - bom, muito bom...


- salada tropical com camarões, manga e queijo "muçarella" - no, thanks.
- camarões aos quatro queijos - idem acima
- picadinho de filé com fritas ao cheddar e bacon - definitivamente, este é um acompanhamento heavy metal!
- bolinho de camarão com catupiry...("moço, tem sem catupiry?")
- frango aos quatro queijos gratinado...
- frango de leite assado com queijo...muita lactose numa só frase.
- pão de alho assado com queijo...
- filé na brasa com queijo...
sobremesas
- cartola . UEBA!!! (cartola é um doce típico pernambucano, com banana, queijo manteiga, muito açúcar e canela)
( a quem interessar possa - é super light #sóquenão...)

- doce de goiaba com creme de leite...

Desconfio seriamente que este restaurante à beira mar seja patrocinado por um laticínio.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

vênus em recife



Havia acabado de ler que "O Nascimento da Venus", de Botticelli, fora originalmente encomendado pelos poderosos Medici para dar de presente a um parente próximo, para ser colocado sobre a cabeceira do leito nupcial, e cuja encomenda solicitava especificamente um quadro de tema sensual ou erótico - daí uma das pinturas mais conhecidas do mundo. Representa Vênus,que nasceu adulta e bela. A deusa do amor, da beleza e da sensualidade nasceu do sêmen de Urano (o Céu) caído na espuma do mar - portanto, é uma filha dos elementos água e ar. E este tema e esta pintura, guardada e exibida na Galleria degli Uffizi, em Firenze, proporcionaram um delicioso jantar ontem, em Recife. 
Convidado pelos meus amigos Sr. N.B. e Sr. A.M.(na verdade fui bem sutil - vamos jantar lá qualquer dia?), fomos em quatro pessoas ao Kovacic A Cozinha, restaurante privado com menu fechado e dirigido pelo dono (Sr. Kovacic - telefone 81 9612-7776), cujos jantares são inspirados em temas distintos. Já havia ido a este lugar uma vez, convidado pelos mesmos amigos, onde tive uma noite memorável. Desta volta, um jantar em tons mediterrâneos, com os sabores distribuídos entre 7 pratos. Começamos com o pé direito, em uma versão dos italianíssimos arancini - bolinhos feitos com risotto, redondos e dourados como pequenas laranjas - daí seu nome. Nesta versão, ele veio banhado de um caldo de carne e ervas de sabor pungente, ligeiramente cítrico - em perfeita combinação com os bolinhos de arroz.
Em seguida, um prato de aparência estranha, mas que simulava a forma como a Vênus foi concebida - uma tapenade morna de azeitonas pretas com linguado, sobre uma base / massa feita de gergelim. Deliciosa...
O terceiro prato foi o ponto alto da noite - uma moussaka, a tradicional "lasanha" grega, feita de cordeiro, berinjela e bechamel.. Aqui, as fatias de berinjela foram grelhadas com um pouco de gordura de pato, conferindo um sabor mais intenso a este prato. E o tomate veio confitado e tostado, cheio de especiarias, uma pequena e perfeita torre circundada por um bechamel delicioso.
A seguir, um peixinho prosaico, com uma calda adocicada de mel de laranjeiras, com uma batata coberta de alho defumado - pediria este alho para botar em tudo, de tão bom. Acompanhavam folhas cruas de couve rasgadas.
O quinto prato exibia um acompanhamento que foi devorado pelos comensais - um pequeno medalhão de filé, com um molho espesso salpicado com pistache e fatias de pão sírio fritas, sequinhas. Nenhum pingo de gordura, nada indicava que aquelas tiras - que pareciam macarrão cru - haviam provavelmente sido fritas em abundante óleo.
E, last but not least, uma ave - um "guisado" de galinha com sementes de girassol e uvas-passas, novamente contrapondo a ardência com sabores adocicados. 
Finalizou uma espécie de bolo/mousse de chocolate, aveia e pistache com uma calda similar a um mingau, com pistaches ralados (como ralaram tanto pistache, não sei...) 
Em um lugar simples, com talheres simples e elegante louça branca, uma bela jovem de pés descalços, túnica preta e turbante branco ajudava o serviço, completando nossos copos com água e com os vinhos que havia levado. Uma música insólita e desconhecida tocava ao fundo, e eu ainda conseguia me lembrar da explicação do chef no início, ligando os pratos com a Vênus e com um texto de Garcia Lorca.  Saímos felizes, fartos de comida, bebida e histórias. A chuva que caíra lá fora parou no momento em que saímos do restaurante, como que para coroar esta junção de histórias. Uma ótima noite, excelente noite. Tks aos amigos N.B. e A. M., para sempre queridos.


segunda-feira, 4 de março de 2013

uma longa caminhada


Ainda em Recife, domingo. Decidi fazer uma caminhada - uma loooooonga caminhada. Saí de Boa Viagem e fui caminhando, caminhando, caminhando...passei pelo bairro de nome divertidíssimo - Brasilia Teimosa - com sua arquitetura peculiar, carros com os porta-malas abertos recheados de alto-falantes (verdadeiros trios elétricos em miniatura) disseminando toda sorte de música ruim em som idem, montanhas de carrinhos fazendo de batatas-fritas a bolinhos fritos e peixes fritos e mais uma montanha de coisas fritas, tudo isto em uma área que tinha o perfil perfeito para ser um polo turístico de beleza inconteste. A calçada quase inexistia, paisagismo zero, sequer uma plantinha mirrada. E eu andando, andando...

Num dado momento, este braço de terra - não sei se configura um istmo, mas parecia - tem pouco mais de 5 metros de largura. De um lado, um paredão de concreto e pedra e o mar aberto, imenso, oceano. Do outro o Rio e a vista do centro da cidade e do Cais Estelita. 
E eu andando, andando...
Cheguei no parque de esculturas Brennand. Ligeiramente abandonado, apesar de ter sido construído não faz muito tempo. Uma placa mostrava data de fundação, arquiteto responsável, paisagista responsável - e novamente procurei um jardinzinho, uma plantinha, uma muda sequer - nada...(Estranho a falta de paisagismo numa cidade de calor inclemente como Recife). Então peguei um barquinho e atravessei até o Marco Zero, para fazer um lanche no Boteco, de minha amiga MD. Mas estava lotado, com fila de espera - e eu já com fome, sede, e as pernas pedindo um pequeno descanso depois de pouco mais de 11km andados.
Peguei o barquinho de volta, atravessei aquela água prateada pelo conjunto de sol e dia nublado, em dia branco cegante, 


e decidi dar uma parada na Casa de Banhos, que conheci recentemente. Um boteco à beira do Rio, coberto de telhas de cimento amianto , com dois ótimos cantores desfiando um repertório de MPB da melhor estirpe. Pedi uma mesa no lugar lotado, para um - e o garçom me olhou com cara de "tá me gozando, não?". Como não esmoreço, esperei alguns minutos até conseguir uma mesa no meio da muvuca. no centro do restaurante, entre duas mesas imensas e barulhentas. Pedi uma cerveja gelada, e um caldinho de peixe. Correção - "o" caldinho de peixe. Delicioso, cheio de aromas sutis, sem um mísero pedacinho de osso ou espinho, fantástico. Pedi outro, e a esta altura os 600ml da cerveja já tinham misteriosamente evaporado.

Tempo para uma caipirinha de rum e o segundo copo de caldinho estava igualmente perfeito, quente sob o teto quente numa tarde quente. A caipirinha desceu perfeita, o doce do rum e o azedo do limão, e eu cada vez mais imerso na música que tocava, nos sabores que provava esquecendo o mundo à minha volta.
Peço duas agulhas fritas - recuso a porção inteira pois tinha uma longa caminhada de volta. 
antes
depois

E uma nova cerveja. O restaurante estava misteriosamente silencioso - embora eu olhasse as pessoas falando, agitadas, eu só ouvia a voz suave do cantor, o violão e o pandeiro, e o barulhinho da água batendo sob o restaurante. 
Nesta hora o cantor dá uma parada, eu levanto um brinde solitário a ele - parece que ninguém o ouve, somente eu - que retribui o brinde e ataca com uma música que eu não ouvia há muito. E que tem a frase "mais solitário que um paulistano" encaixada em seus versos de forma perfeita. Como se encaixou igualmente ao momento, pois eu estava sozinho no mundo naquele momento. 

Pedi a conta. Gozação comigo não! (mesmo porque ainda tinha 11 km de caminhada na volta...)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

little things

Perceber a vida nos pequenos detalhes. Na ligação que recebi de Gabriel, perguntando "Tio Wair, porque você não veio à minha festinha de aniversário?" e me deixou passado. Na lua que despontou na minha frente às cinco horas da tarde quando eu tomava um gin-tônica depois de um sábado intenso de trabalho em Recife. No cuscuz pernambucano que fiz no domingo de manhã, e que ficou delícia. No vendedor de coco verde na praia, que veio puxar papo do nada - e o papo foi ótimo. Nos crostini que fiz ontem à noite, e na taça de Champagne que estava na temperatura e perlage perfeitas. No jardim que está florescendo, nas heras crescendo, no vaso de alfazema dando flores completamente fora de época. Na Valentina atendendo ao telefone e me dizendo "posso te dizer um segredo? Meu dente está mole..." No pato com purê de banana-da-terra  que servimos numa festa na loja de Recife. Na cabra feita por uma artista popular que comprei, e que estou adorando - ela é perfeita. No eclair de chocolate que comi no La Bombe, em São Paulo - apesar do comentário de minha comadre (one second in your lips, forever in your hips...), nos chás que eu descobri no fundo do armário e que ainda não tinha experimentado, nos livros da Jennifer Egan que ganhei de um amigo - li os dois, adorei - na cara do Raphael na piscina de bolinhas - felicidade!Na pose estranha do Leopoldo olhando um grafitti do Superman na parede de meu quarto, na pose exótica do Leopoldo tomando sol à beira da varanda do quarto, no pescoço quentinho num dia de inverno, nos pés sem meias em Recife, na gravura do Joel Shapiro que consegui comprar por ótimo preço - e na foto do Hugo Curti que ele me deu, hugs Hugo!No café da manhã reforçado com panquecas e ovos - calorias de manhã são tão recompensadoras... Nos sushis perfeitos de um jantar outro dia em lugar que não dava nada - e fui agradavelmente surpreso - no Lambrusco insólito que abri numa noite quente, no sabor do abacaxi récem-descascado e consumido ainda morno na praia, na temperatura perfeita da água à beira-mar, no som de Glen Gould suplantando o trânsito insano, no livro ÓTIMO do Paulo Francis, nas lombadas descascadas de velhos livros, num sorvete consumido sem culpa, bem como o bolo perfeito da Kukla pertinho da galeria, enfim - na descoberta de que mais do que estar certo quero é estar tranquilo.