food, art & spirits

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sexta-feira, 31 de maio de 2013

vênus em recife



Havia acabado de ler que "O Nascimento da Venus", de Botticelli, fora originalmente encomendado pelos poderosos Medici para dar de presente a um parente próximo, para ser colocado sobre a cabeceira do leito nupcial, e cuja encomenda solicitava especificamente um quadro de tema sensual ou erótico - daí uma das pinturas mais conhecidas do mundo. Representa Vênus,que nasceu adulta e bela. A deusa do amor, da beleza e da sensualidade nasceu do sêmen de Urano (o Céu) caído na espuma do mar - portanto, é uma filha dos elementos água e ar. E este tema e esta pintura, guardada e exibida na Galleria degli Uffizi, em Firenze, proporcionaram um delicioso jantar ontem, em Recife. 
Convidado pelos meus amigos Sr. N.B. e Sr. A.M.(na verdade fui bem sutil - vamos jantar lá qualquer dia?), fomos em quatro pessoas ao Kovacic A Cozinha, restaurante privado com menu fechado e dirigido pelo dono (Sr. Kovacic - telefone 81 9612-7776), cujos jantares são inspirados em temas distintos. Já havia ido a este lugar uma vez, convidado pelos mesmos amigos, onde tive uma noite memorável. Desta volta, um jantar em tons mediterrâneos, com os sabores distribuídos entre 7 pratos. Começamos com o pé direito, em uma versão dos italianíssimos arancini - bolinhos feitos com risotto, redondos e dourados como pequenas laranjas - daí seu nome. Nesta versão, ele veio banhado de um caldo de carne e ervas de sabor pungente, ligeiramente cítrico - em perfeita combinação com os bolinhos de arroz.
Em seguida, um prato de aparência estranha, mas que simulava a forma como a Vênus foi concebida - uma tapenade morna de azeitonas pretas com linguado, sobre uma base / massa feita de gergelim. Deliciosa...
O terceiro prato foi o ponto alto da noite - uma moussaka, a tradicional "lasanha" grega, feita de cordeiro, berinjela e bechamel.. Aqui, as fatias de berinjela foram grelhadas com um pouco de gordura de pato, conferindo um sabor mais intenso a este prato. E o tomate veio confitado e tostado, cheio de especiarias, uma pequena e perfeita torre circundada por um bechamel delicioso.
A seguir, um peixinho prosaico, com uma calda adocicada de mel de laranjeiras, com uma batata coberta de alho defumado - pediria este alho para botar em tudo, de tão bom. Acompanhavam folhas cruas de couve rasgadas.
O quinto prato exibia um acompanhamento que foi devorado pelos comensais - um pequeno medalhão de filé, com um molho espesso salpicado com pistache e fatias de pão sírio fritas, sequinhas. Nenhum pingo de gordura, nada indicava que aquelas tiras - que pareciam macarrão cru - haviam provavelmente sido fritas em abundante óleo.
E, last but not least, uma ave - um "guisado" de galinha com sementes de girassol e uvas-passas, novamente contrapondo a ardência com sabores adocicados. 
Finalizou uma espécie de bolo/mousse de chocolate, aveia e pistache com uma calda similar a um mingau, com pistaches ralados (como ralaram tanto pistache, não sei...) 
Em um lugar simples, com talheres simples e elegante louça branca, uma bela jovem de pés descalços, túnica preta e turbante branco ajudava o serviço, completando nossos copos com água e com os vinhos que havia levado. Uma música insólita e desconhecida tocava ao fundo, e eu ainda conseguia me lembrar da explicação do chef no início, ligando os pratos com a Vênus e com um texto de Garcia Lorca.  Saímos felizes, fartos de comida, bebida e histórias. A chuva que caíra lá fora parou no momento em que saímos do restaurante, como que para coroar esta junção de histórias. Uma ótima noite, excelente noite. Tks aos amigos N.B. e A. M., para sempre queridos.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

if nothing else...

Por uma boa causa, afastei-me da blogsfera nos ultimos tempos. E a causa tem um nome - Gabinete D.

Depois de 21 anos prestando serviços a uma empresa, e ao sair voluntariamente desta ter a exata noção do tempo perdido (quem trabalha feito um maluco para que outro ganhe créditos e dinheiro deve ser maluco mesmo), decidi - junto com meu companheiro de empreitada e vida Eduardo - abrir o GabineteD, uma lojinha pequena na Al. Tietê, intimista nos jargões de press-release, mas na verdade fisicamente pequena. Ficou muito legal, simpática, as pessoas adoravam - mas quando tinha mais de um cliente, a loja tumultuava. Aliás, só com um cliente ela já tumultuava mesmo...Fora o fato de que não tinha onde parar carro, o que em São Paulo é a escada para o cadafalso do comércio. 

Aí conseguimos uma casa legal, que não deu certo, então arranjamos outra casa legal, que também não deu certo, mas os deuses conspiram a favor de todos aqueles que, como nós, continuam tentando. Eduardo conhecia um lugar de uma amiga, uma galeria de arte linda e pouco conhecida. Mostramos ao nosso sócio Sr. O, que vislumbrou naquele espaço possibilidades enormes de crescimento. E pouco tempo depois de assinado o contrato, abrimos o GabineteD Objetos e Imagem - um espaço composto de duas partes distintas - uma, a Galeria de Arte, espaço limpo, claro e solene, inaugurado com a exposição de um jovem fotografo chamado Alberto Oliveira. 
Ao subir a escada vermelha, o oposto - uma feérie de cores móveis objetos e peças das mais variadas origens e épocas traduz o espírito do GabineteD - um lugar iconoclasta, aberto às mais variadas manifestações do design e da cultura deste, do popular ao erudito. 
Onde o clássico e o moderno se encontram, onde o design assinado divide espaço com a produção popular, um apanhado de coisas distintas sob a égide do conceito original - a falta de preconceitos e a eliminação total de dogmas, baseado unicamente no binômio qualidade e originalidade.



Conhecemos nossos novos sócios - e agora queridos amigos - Sr. A e Sr. O (já citados aqui no blog) pelas redes sociais. Eduardo descobriu o artista que inaugurou nossa Galeria pela rede. Então nada mais natural do que manifestar minha satisfação e orgulho pelo mesmo veículo.
Sim, estou orgulhoso do trabalho que fizemos. Faremos de tudo para transformar este espaço num ponto de encontro e referências nos assuntos arte, design, cultura  e afins. Estamos pensando nos mínimos pormenores - afinal, "God is in the details", como disse o mestre.


Estão todos convidados. A casa está sempre aberta, como deveriam ser todas. 
Gabinete D Objetos e Imagem
Rua Estados Unidos 273
Jd. Paulistano   São Paulo, SP
t.: 11 4328-0070
www.gabineted.com.br

segunda-feira, 22 de abril de 2013

fifty shades of green


 E eu cooptei. Cedi aos encantos do maldito trocadilho para o titulo deste post, com o intuito de chamar mais facilmente a atenção do leitor. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Mas é que esse título não me saía da cabeça desde que comecei a insólita dieta da sopa verde, recomendada por minha comadre M. Ela havia me dito que tinha emagrecido 4 quilos (não sei de onde, pois já é magra a peste!) em poucas semanas, fazendo uso de uma sopa feita de verdes todos os jantares, exceto domingos. Como gosto de sopa, e em casa exceto Leopoldo, meu fiel escudeiro, todos precisavam perder peso, encarei a rotina de criar sopas verdes sem um sabor monocórdico.
Comecei com uma prosaica sopa feita de músculo, abobrinha, chuchu, aipo, cebolinha e couve. Apesar dos temperos, achei que faltava algo. No dia seguinte, uma sopa de espinafre adaptada do Low Fat Cooking, que ficou ainda mais light com a substituição da batata por chuchu e a ausência do leite pedido na receita. Refoguei parte do espinafre com alho, cebola e azeite. Adicionei caldo de frango, chuchu, aipo e, após tudo cozido, bati no liquidificador. Coei, adicionei peito de frango desfiado (com que tinha feito o caldo), folhas cruas de espinafre e servi - ficou ótimo. No terceiro dia, uma sopa de acelga, couve, chuchu (novamente...),cebolinha em caldo de legumes. Senti um certo vazio no decorrer da noite - e não era existencial, era substancial...
No quarto dia, trapaceei. Uma sopa de ervilha - afinal, é verde! - com costelinha defumada. A taça do ótimo tinto Meia Pipa ajudou na trapaça. No quinto, outra sopa de coisas verdes...No sexto dia, tinha a impressão de estar virando um Hulk subnutrido. Pensei em trapacear com caldo verde, mas tinha tido uma orientação especifica do tipo "não vale caldo verde, ok?"...Nova sopa com abobrinha, coisas verdinhas, e não adiantava mudar o prato, o bowl, o que fosse - parecia um cardápio orientado pelo Grinch .

A essa altura da dieta, tinha a nítida impressão de que se o Brad e a Angelina me chamassem para trás de uma moita, eu comeria a moita. No décimo dia, novo logro - uma massa verde recheada de alcachofra. O prato era verde, o recheio verde claro, mas quanta diferença...
Ao largo de 10 dias, após encarar o visor da balança - para ver o resultado deste eco-desafio, liguei para a mesma comadre. Ela me perguntou
- " E aí, Wair, depois de 10 dias, perdeu quanto?"
respondi de pronto
- " Perdi 10 jantares..."

quarta-feira, 20 de março de 2013

duplas dinâmicas

café com leite
pão com manteiga
goiabada com queijo
arroz e feijão
caviar com vodka
aliás, qualquer coisa com vodka
prince e stylistics
salmão com endro
fish & chips
cerveja com praia
ovo com trufas
prosciutto com figos frescos
figos com queijo de cabra
dame shirley bassey & propellerheads
tequila e limão
chardonnay e ostras
frango com farofa
burger & diet coke
burger & beer
pastel e caldo de cana
jorge drexler e susana félix
brigadeiro com guaraná
chocolate quente e inverno
coalhada com zattar
azeite com zattar
tequila e limão
water and flame (daniel merriweather & adele)
rhum and coke
gin & tonic
morango com chantilly
canja de galinha e cautela
acarajé com pimenta
cocada não precisa de mais nada
assim como elis regina





sábado, 16 de março de 2013

aquiles

Então sábado passado teve uma megasuperhiperultra festa na casa de meus amigos A. e O, queridos. A casa estava linda como sempre, mas enfeitada de flores vermelhas por todos os cantos. Manobristas à porta, champagne na chegada, canapés deliciosos - enquanto um DJ desfiava um setlist que incluia Earth Wind & Fire, Marvin Gaye e Prince, delicioso. Um chef que ainda não conhecia - Alexander Garcia - era o responsável pelo cardápio, e esmerou-se com afinco. Sobre a mesa, uma salada de base crocante com queijo de cabra e mini-legumes grelhados convivia com uma mousse de roquefort e figos turcos, mais uma quiche de cogumelos deliciosa, uma torta cuja massa tinha manjericão recheada por mozzarella de búfala e tomatinhos era uma versão assada da salada caprese, blinis com ovas de salmão perfeitos, e um "domo" de salmão com mini-beterrabas assadas absolutamente incrível. Perto da piscina, dois jovens magros e cabeludíssimos (odeio gente magra e cabeluda ...#ainvejamata...) estavam encarregados dos drinks e caipirinhas de lichia, morango, limão, kiwi e abacaxi - praticamente uma orgia gastro-etílica da maior categoria.
As sobremesas eram acintosas - e aquela "Sunset Party" foi adentrando a noite, o nível etílico subindo, a minha cintura aumentando face às opções gastro/etílicas, novos amigos sendo feitos, uma noite como deveriam ser todas as noites : bebidas, amigos, música, alegria. 
Então eu resolvi agradecer de uma forma muito simples - oferecendo um jantarzinho em casa. Mesa posta,
champagne gelada, um ótimo tinto - Cartuxa, que adoro - um late harvest esperava a sobremesa...e eu invento de última hora um prato com um fator complicante. Claro, eu tinha que complicar... Já havia feito o risotto um dia antes, para transforma-lo em riso al salto. O ragu para acompanhar o risotto estava pronto. A sopa de cenoura com gengibre e especiarias também tinha sido feita na noite anterior, para tomar mais gosto e ardência.

A mousse de manga e iogurte, levíssima, repousava em taças de dry-martini esperando apenas o tartare de manga e pimenta dedo-de-moça para coroar a sobremesa.

E eu vi uns aspargos lindos, verdes, e falei - Eureca! Aspargos com uma espécie de farofinha de pancetta, pão, parmesão e raspas de limão coroado por um ovo pochê...Aliás, cinco ovos pochês, pois eram cinco pessoas.
Mas eu e o ovo pochê somos inimigos mortais...Dias antes tinha me encontrado com meu amigo Bergamo, (que me deu este livro ótimo)
e havia comentado minha inaptidão para com este prato. Ele me deu as dicas, e ainda disse que podia cozinhar os ovos dentro de um saquinho untado, como visto pelo Prato Fundo. mas eu sou teimoso estóico, e quis fazer da maneira tradicional...
O primeiro ovo transformou-se numa espécie de fantasma dentro de minha panela, com um milhão de ramificações flutuando aleatoriamente. Lembrei-me da dica da temperatura da água dada pelo Bergamo, abaixei a temperatura, coloquei o vinagre, e agora meu segundo ovo pochê parecia um mini polvo albino, boiando na panela com seus 8 tentáculos...Nova tentativa. Quebrar o ovo numa tigelinha. Derramar ele lentamente na água, queimando a ponta dos dedos. Reunir a clara lentamente tentando dar forma decente ao ovo. Achar que o resultado está quase pronto, e ao tentar retirar descobrir que conseguiu a proeza de colar o ovo no fundo de uma panela que contém apenas água e vinagre...
Aí tive a idéia fantástica. Pegar um coadorzinho de chá de forma esférica, crendo que- como a clara era mais densa do que o líquido, com a água quente ela ia ficar mais densa ainda e tornar-se uma esfera perfeita e branca, contendo uma gema liquefeita. Na teoria, podia funcionar - em alguma realidade paralela, claro. Na prática, perdi um coador de chá, visto que um milhão de cabelinhos brancos acabou saindo pelos furinhos, e eu nunca mais terei condições de fazer chá neste recipiente novamente...
A esta altura, tocou a campainha. Eu já havia desperdiçado quatro ovos, e apenas 5 restavam na geladeira. Não tinha mais margem para o erro - ou erros, no plural mesmo. Mudei a receita - vide prato abaixo - para uns ovos quentes, com a gema densa, com umas lascas de flor de sal. Meu segundo prato não ficou aquela maravilha, apesar da farofinha ser deliciosa e dos aspargos perfeitamente no ponto. Mas meus amigos são muito elegantes, e não reclamaram. Mesmo porque eu ainda tinha dois pratos para me redimir do fiasco...Para vocês terem uma id~eia, até a foto saiu fora do foco!
Na próxima, farei souflée. Ovos nevados. Fios de ovos. Paté en croute. Mil folhas. Qualquer coisa mais simples que ovo pochê...

segunda-feira, 4 de março de 2013

uma longa caminhada


Ainda em Recife, domingo. Decidi fazer uma caminhada - uma loooooonga caminhada. Saí de Boa Viagem e fui caminhando, caminhando, caminhando...passei pelo bairro de nome divertidíssimo - Brasilia Teimosa - com sua arquitetura peculiar, carros com os porta-malas abertos recheados de alto-falantes (verdadeiros trios elétricos em miniatura) disseminando toda sorte de música ruim em som idem, montanhas de carrinhos fazendo de batatas-fritas a bolinhos fritos e peixes fritos e mais uma montanha de coisas fritas, tudo isto em uma área que tinha o perfil perfeito para ser um polo turístico de beleza inconteste. A calçada quase inexistia, paisagismo zero, sequer uma plantinha mirrada. E eu andando, andando...

Num dado momento, este braço de terra - não sei se configura um istmo, mas parecia - tem pouco mais de 5 metros de largura. De um lado, um paredão de concreto e pedra e o mar aberto, imenso, oceano. Do outro o Rio e a vista do centro da cidade e do Cais Estelita. 
E eu andando, andando...
Cheguei no parque de esculturas Brennand. Ligeiramente abandonado, apesar de ter sido construído não faz muito tempo. Uma placa mostrava data de fundação, arquiteto responsável, paisagista responsável - e novamente procurei um jardinzinho, uma plantinha, uma muda sequer - nada...(Estranho a falta de paisagismo numa cidade de calor inclemente como Recife). Então peguei um barquinho e atravessei até o Marco Zero, para fazer um lanche no Boteco, de minha amiga MD. Mas estava lotado, com fila de espera - e eu já com fome, sede, e as pernas pedindo um pequeno descanso depois de pouco mais de 11km andados.
Peguei o barquinho de volta, atravessei aquela água prateada pelo conjunto de sol e dia nublado, em dia branco cegante, 


e decidi dar uma parada na Casa de Banhos, que conheci recentemente. Um boteco à beira do Rio, coberto de telhas de cimento amianto , com dois ótimos cantores desfiando um repertório de MPB da melhor estirpe. Pedi uma mesa no lugar lotado, para um - e o garçom me olhou com cara de "tá me gozando, não?". Como não esmoreço, esperei alguns minutos até conseguir uma mesa no meio da muvuca. no centro do restaurante, entre duas mesas imensas e barulhentas. Pedi uma cerveja gelada, e um caldinho de peixe. Correção - "o" caldinho de peixe. Delicioso, cheio de aromas sutis, sem um mísero pedacinho de osso ou espinho, fantástico. Pedi outro, e a esta altura os 600ml da cerveja já tinham misteriosamente evaporado.

Tempo para uma caipirinha de rum e o segundo copo de caldinho estava igualmente perfeito, quente sob o teto quente numa tarde quente. A caipirinha desceu perfeita, o doce do rum e o azedo do limão, e eu cada vez mais imerso na música que tocava, nos sabores que provava esquecendo o mundo à minha volta.
Peço duas agulhas fritas - recuso a porção inteira pois tinha uma longa caminhada de volta. 
antes
depois

E uma nova cerveja. O restaurante estava misteriosamente silencioso - embora eu olhasse as pessoas falando, agitadas, eu só ouvia a voz suave do cantor, o violão e o pandeiro, e o barulhinho da água batendo sob o restaurante. 
Nesta hora o cantor dá uma parada, eu levanto um brinde solitário a ele - parece que ninguém o ouve, somente eu - que retribui o brinde e ataca com uma música que eu não ouvia há muito. E que tem a frase "mais solitário que um paulistano" encaixada em seus versos de forma perfeita. Como se encaixou igualmente ao momento, pois eu estava sozinho no mundo naquele momento. 

Pedi a conta. Gozação comigo não! (mesmo porque ainda tinha 11 km de caminhada na volta...)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

versatile awards

Graças ao Serginho Tavares, do ótimo blog Justo e Digno, ganhei o selinho ao lado. Já chamaram meu blog de diferente, prático, até de fofo (que eu achei muito estranho, confesso...), mas ganhar o "Versatile Awards" foi ótimo. Portanto, seguindo as regras do concurso que me elegeu, terei que sugerir 15 blogs que se encaixem no perfil, e também citar 7 coisas sobre minha pessoa.
Portanto, lá vamos
1) falo muito rápido e baixo - a maioria das pessoas não entende na primeira vez, e algumas nem na segunda.
2)adoro rhum and coke...old fashion, eu seu. Mas what the hell!
3)vivo em eterna briga com minha balança, embora disfarce muito bem nas fotos - anos de prática.
4)adoro Elis Regina. 
5)tenho uma péssima memória, o que me assusta as vezes - aliás, me assusta sempre. Mas em compensação guardo números com muita facilidade - contas bancárias, senhas, cpfs e cnpjs, números de documentos, de telefones, falou em número é comigo - exceto datas, que também não me lembro.
6)tenho pânico, pavor de dentista.
7)sou um otimista incurável com tendências à procrastinação, tentando reverter isto.
Ufa!! Quase um mea culpa... Agora, aos blogs. Estou com dificuldade de encontrar 15 que se encaixem no perfil tanto da proposta quanto de meu blog, realmente destinado ao universo culinário. Mas, vamos lá.
Muque de Peão, do ótimo Luciano Guimarães
Marta Matui (citada para ver se ela volta a blogar)
Thiago Lasco - bissexto, mas ótimo
Ponta de Punhal, da Margot
Justo e Digno, claro!
Cheguei a 11.Prefiro Top Eleven a Top Fifteen...
Abraços, e bom final de semana para todos.



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

café com leite

Parei de tomar leite, de tanto que me disseram que depois de adulto, era bom diminuir o consumo deste. Meu breakfast hoje reduziu-se a um pedaço de fruta, uma xícara imensa de café preto e meio pão francês integral (ou um inteiro, dependendo da fome do clima) e prosaicas fatias de queijo. Muito raramente, à tarde, um café com leite pequeno para aplacar a ansiedade entre as refeições (se eu pego quem inventou o termo e/ou conceito dieta eu sou capaz de cometer um crime...). Mas do pouco que me recordo de minha infância e pré-adolescência, lembro de tomar uma espécie de "sopa" de café-com-leite onde derrubava-se pedaços de pão, geralmente em frente à TV vendo filmes de terror ou de mistério. Em priscas eras, quando visitava minha avó paterna em Catanduva (interior de São Paulo), tomava leite com Toddy em umas canecas que imitavam um barril de madeira, kitsch até toda prova, mas que eram disputadas a tapa pelos netos. Em noites de insônia precoce, uma caneca de leite morno bastante adoçado com um tiquinho de canela. Mingau e um grosso chocolate onde colocava ainda pedacinhos de chocolate em barra no fundo da xícara. No verão, chocolate batido no liquidificador, gelado, com bastante espuma. E, vez ou outra, um milk-shake caseiro intenso,  onde misturava leite, sorvete de morango e morangos em pedaços, entupindo o canudinho (naquela época não tinha variações de diâmetro para canudo, acreditam?).
Mas de vez em quando mato esta vontade/saudade de outras formas, como na sobremesa que fiz recentemente em casa - um pudim de capuccino, que nada mais é do que um pudim de leite com café. E que, apesar de simples e trivial, faz sucesso em refeições descompromissadas - como deveriam ser todas, afinal.

pudim de capuccino
(para seis a oito pessoas)

1 lata de leite condensado
2 latas (utilizar como medida) de leite integral
3 ovos
1 colher de chá cheia de café solúvel
8 colheres de açúcar refinado

fazer um caramelo seco com o açúcar - se ficar mais escuro, ficará mais amargo. quando claro, mais adocicado. "untar" uma forma de buraco no meio com este caramelo.
bater o leite com o leite condensado, as gemas e o café solúvel no liquidificador. derramar gentilmente na forma untada, e colocar para assar em banho-maria a 180º por aproximadamente 40 minutos. fazer o teste do palito para ver se está cozido, esperar esfriar para desenformar. aqui, servi com uma farofa feita de paçoca e um tico de flor de sal, para quebrar o doce. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

For what is a man, what has he got?



Não posso dizer que fiz tudo do meu jeito - talvez pelo meu modo cordato de levar a vida. Ela já me deu muita porrada violenta, não dava para toda hora ficar batendo boca com a dita cuja - portanto era mais fácil ouvir os desaforos e seguir caminho. Mas deu mais certo do que errado - e agora, na segunda metade de minha vida (sim, os 100 anos são os novos 70 - dona Canô e Niemeyer comprovaram isto), exatamente no primeiro dia do ano de 2013, tive um longo momento de silêncio absoluto, o que provocou uma gritaria interna pedindo decisões para esta segunda metade.
Não estou querendo mais conquistar posições - estou querendo ter tempo para os pequenos prazeres.
E também para me proporcionar coisas novas, geminiano que sou - o que quer que isto signifique, pois não sou um conhecedor de astrologia.
Sempre me foi difícil acompanhar ao pé da letra um plano diretor - inclusive dentro de minha profissão, ainda mais na vida, pois  achava que a margem de erro era mais excitante do que seguir passo a passo uma receita pré-estabelecida. Mas já está na hora de aprender com alguns erros, e este - a predisposição do desacerto - terá de ser suprimida na medida do possível. 
Vou encarar alguns medos ancestrais. O primeiro - vou aprender a nadar. Ainda não sei nadar absolutamente nada, e tenho a companhia de minha querida amiga e comadre A., que está me incentivando a fazer isto junto com ela, que tem o mesmo "déficit". O receio de parecer ridículo, agarrado a uma pranchinha e sendo amparado por um professor da metade de minha idade (ou menos...)pelo menos será compartilhado - ou seja, vexame a dois é meio vexame.
Hoje soube que meu afilhado de quase cinco anos deu uma bronca severa no cachorro que comeu seu dinossauro, com momentos cômicos da melhor qualidade. Não quero mais perder muitos momentos como este.
Vou tentar tirar algumas pequenas férias sem nenhum motivo profissional, desinteressadas - faz muito muito muito tempo que isto não ocorre. 
Vou tentar beber menos. Não deve doer tanto.
Cuidar um pouquinho do corpo está na lista de ações - saúde principalmente, sou completamente desencanado (leia-se irresponsável) com isso.
Ler mais. Tenho um medo absoluto da perda da memória, e acredito piamente que ler - além de prazeiroso, diminui as chances disto acontecer.
Voltar a tocar piano está nos planos. Tocava muito bem quando  garoto, depois Eduardo me presenteou com um piano de um quarto de cauda, mas eu travei - achei que estava duro, junto à lembrança que tinha de mim mesmo. Como não pretendo dar recitais mundo afora, vou aceitar esta falta de prática como um "work in progress" eterno.
Boulangerie e patisserie estão anotados no caderninho.
Já falei beber menos?
Tirar a palavra procrastinar de meu dicionário. Ou pelo menos fazer uso comedido deste verbo.
Guardar dinheiro - deve ter um jeito de eu fazer isto. Preciso encontrar este gene no meu DNA. Não de forma avara, mas como medida profilática para o futuro. 
E no final da vida, poder cantar ao piano
"I´ve planned each charted course
Each careful step along the byway...
...The record shows, I took the blows
And did it my way."

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

bicho não paga mico

Almoçando num restaurante japonês ao lado da loja, sozinho, peço uma cerveja para matar o calor tórrido que transforma São Paulo numa filial do último círculo do Inferno. E ao meu lado, em seguida, senta-se um casal - aliás, um par. Um homem pouco mais velho do que eu, aproximadamente 55/60 anos, e uma menina que, se não era menor de idade (atualmente fica difícil constatar se alguém é menor de idade ou não) tinha no máximo 20 anos - um terço da idade de seu acompanhante.
Adianto - eu não estava no Jun Sakamoto ou no Nagayama (infelizmente...) nem algo parecido, era um prosaico restaurante que serve um "festival de sushi"ou pratos executivos corretos, sob o comando de Da. Elza, sempre atenta aos clientes que a conhecem pelo nome e desfrutam de sua simpatia. Pois neste restaurante, meu vizinho de mesa pergunta para sua acompanhante se ela aceita um vinho para acompanhar o almoço...ela responde que prefere uma Diet Coke. 
Neste ponto meu xeretômetro ligou no máximo...péssimo hábito, sei. Mas se eu fosse um novelista, teria cenas de restaurantes ótimas para reproduzir na telinha. 

E a partir daí a constatação de que o que difere o homem dos animais não é sua capacidade de raciocinio, observação, compreensão, etc. O que nos difere é nossa capacidade de sermos patéticos.
A menina estava ali apenas para comer uns sushizinhos, tomar sua Diet Coke e ouvir meia hora de algum assunto que ela fingiria interesse mas não estava nem um pouco afim de adicionar ao seu arquivo pessoal. Ele estava lá para seduzi-la da pior forma possível - esbanjando sua história, cultura, conhecimentos e congêneres, tentando compensar a falta de idade dela com o excesso de bagagem dele. E tome citações desnecessárias (e incompreensíveis para ela), referências geográficas, paternalismo ("...você é sensível, vai adorar Paris..."), um enredo que culminou quando ele, tentando parecer local, disse à garçonete : "não quero executivo nem festival, quero a la carte" e, ao receber o cardápio, teve que pegar os óculos para vista cansada...tentou disfarçar, esticou o braço ao máximo, forçou os olhos mas teve que ceder ao peso da idade, e retirou de sua mochila um daqueles óculos que vendem nas farmácias. Lembrei-me imediatamente de uma campanha publicitária veiculada algum tempo atrás (vide video AQUI ) ,
veio-me à memória as cenas do clássico Morte em Veneza (com o compositor apaixonado pelo efebo Tadzio e suas inefáveis consequências)

e mais não lembrei porque comecei a sentir a síndrome da vergonha alheia se manifestando, terminei meu temaki e meu misoshiro rapidamente e me fui. Não sem antes perceber a cara de enfado da menina, que nitidamente preferia estar conversando com alguém via Facebook ou tweetando algo, no lugar de ouvir as peripécias de seu acompanhante. 
Saí de lá lembrando de uma frase - acho que da Mafalda (a personagem de Quino), que falava algo parecido como "nessas horas eu percebo que o gênero humano tem mais de gênero do que de humano..." 
Definitivamente, bicho não paga este tipo de mico.

domingo, 25 de novembro de 2012

novaiorquinas

Voltei semana passada à New York, a trabalho. Graças à falta de habilidade da American Airlines, cheguei com um dia de atraso - o vôo (AA950 de 11/11/2012) foi cancelado depois de quase quatro horas parados e presos dentro do avião - pois quando conseguiram consertar o defeito da aeronave, tiveram que lidar com questões burocráticas - na verdade, as horas de trabalho da tripulação "estourariam" depois desta espera, impossibilitando a decolagem. 
Por causa deste atraso, todo minha agenda naquela cidade ficou atrasada. E não deu para fazer nada que nós queriamos, a não ser trabalhar e trabalhar e chegar mortinho no hotel para sair no dia seguinte para trabalhar. Mas sempre dá para dar uma esticadinha aqui ou ali. Por questões práticas, fomos almoçar no ABC Kitchen, de Jean-Georges Vongerichten (confesso que dei a dica de encontrarmos um móvel lá apenas por causa do restaurante - mas fui sutil, ninguém percebeu...). Lugar legal, de preço justo, comida simples e geralmente muito bem executada, gente bonita, ou seja - o pacote completo.
Ao nosso lado, uma bancada ostentava legumes orgânicos dispostos de tal forma que parecia uma natureza-morta clássica. Não resisti e comecei a fotografar, pagando o mico mesmo.

Chegou a habitual água cheia de gelo, uma travessinha de madeira com pães quentinhos, azeite e sal. Couvert básico, mas com o diferencial - tudo muito bom, simples e bom.


Eu queria uma coisinha leve mas quentinha, pois tinha jantado no próprio hotel no dia anterior - um prosaico e imenso Turkey Club Sandwich. E vi no cardápio o prato que me deixaria feliz - uma massa simples, recheada de ricota com molho de tomates. Tudo orgânico, como ressaltava o cardápio. E o prato era uma beleza de simplicidade e sabor - a massa cozida à perfeição, o molho suave e ligeiramente apimentado, o grana padano ralado era de excelente procedência, tudo o que eu precisava naquele momento. E a apresentação sem rabiscos ou desenhos desnecessários.
Mas a esta altura eu já estava disposto a aumentar a minha circunferência abdominal, pois tinha lido no cardápio algo que tinha me aguçado os sentidos - um Salted Caramel Ice-Cream with Candied Peanuts & Popcorn. Só não comi a massa mais rapidamente para chegar à sobremesa mais cedo, pois o prato estava realmente muito bom - e por apenas U$ 23. Mas aí...chegou a sobremesa.

A textura do sorvete era indescritível. Parecia uma bola de caramelo gelado, com uma pontinha de sal ao fundo, e eu que adoro sorvete juro que nunca provei um com esta textura - não se sentia o "gelado" típico, nem se percebia a gordura do mesmo. As pipocas eram caramelizadas, e uma calda de chocolate meio amargo arrematava o conjunto (eu achei desnecessário, mas ninguém da mesa concordou comigo). Quase peço outro prato igual, o que me faria subir até o topo do Flatiron Building a pé para queimar as calorias desta sobremesa.

Esta é uma cidade que eu e o Eduardo adoramos - e desta vez não deu para aproveitar tanto como de costume, mas - what the hell, 
we´ll always have Paris... 

sábado, 10 de novembro de 2012

química - ou "it´s going to be a bumpy night"


Química é uma ciência baseada na instabilidade. Uma gotinha a menos disto aqui, um segundo a mais do tempo previsto ou a mínima variação de temperatura e KABOOOOOM! Explosão na certa.
E a química para uma reunião perfeita é ainda mais difícil de ser controlada : alguém fala uma bobagem inocente mas de repercussão imprevisível (como no vídeo de All About Eve acima, em uma das mais clássicas frases do cinema), bebida quente e/ou faltando, qualquer deslize pode transformar a idéia de uma noitada perfeita em um remake de "Nightmare in Elm Street". 
Esta semana fomos convidados para um jantar informal na casa de dois amigos recentes mas especiais - Sr. N e Sr. O. Questionando sobre se era um jantar sentado, ouvimos a resposta de que seria informalíssimo, onde um amigo deles faria uma massa, coisa de se conversar na cozinha - ou seja, tudo o que gosto.
Chegamos e a casa estava arrumadíssima, já cheia de enfeites natalinos e uma imponente árvore de Natal parecia estar recepcionando os convidados. Fui direto para a cozinha, onde um italiano (o tal do amigo) preparava bruschettas deliciosas servidas por sua visivelmente apaixonada namorada brasileira. Um excelente vinho tinto, cuja marca me esqueci, me foi servido imediatamente, tendo ao fundo a voz de Piaf.
Chegaram mais dois casais - éramos onze ao todo - e a bebida rolando, o papo solto e informal, novas amizades sendo feitas, os anfitriões super à vontade porém atentos a tudo, e na hora certa uma massa perfeita e original, com pedaços minúsculos de linguiça, funghi porcini e trufas negras. 
(Olha a cara do prato, aliás, numa belíssima porcelana...)
Não me fiz de rogado e ainda aceitei um repeteco, pois o prato estava delicioso - deixar o convidado tão à vontade a ponto de repetir o prato é uma ciência delicada, conduzida neste caso com maestria e muita simpatia. Seguiu uma sobremesa ótima, e quando perguntamos a um dos donos da casa quem tinha feito, ele respondeu de pronto - "não tenho idéia, eu só fiz o cheque...", arrancando risadas dos presentes frente à sua desconcertada franqueza.
Voltamos para casa alimentados de corpo e espírito, lembrando de uma outra reunião na casa de conhecidos, onde o excesso de pompa e circunstâncias transformou o tempo numa unidade incomensurável, pois a noite não passava...os minutos eram décadas, e os silêncios constrangedores. Eu mesmo já errei a mão em algumas reuniões em casa, onde a pretensão de querer ser perfeito resultou numa química errada.
Mário Quintana disse certa vez a respeito de reuniões sociais que "...o excesso de gente me impede de ver pessoas." Concordo com ele.

sábado, 3 de novembro de 2012

a memória e o gosto


Meu pai era o que comumente se chamava de "bom de garfo". E gostava de ir sempre nos mesmos restaurantes, pedir praticamente os mesmos pratos, pois detestava a margem para o erro (eu realmente nasci seu oposto também nisto...). As vezes se aventurava na cozinha, fazendo algumas coisas que não davam muito trabalho, mas fazia o básico impecavelmente bem feito. Seu torresmo (comentei isto outro dia na Nina Horta) era de uma precisão absoluta - tamanho e crocância, tudo perfeitamente bem executado. Nunca me aventurei a fazer isto, primeiro porque exigia uns panelões imensos e uma cozinha muito ventilada; segundo, porque não tenho a coragem de repetir uma receita que era perfeita, e dar errado - prefiro continuar na tentativa de achar um no mínimo parecido entre os restaurantes que frequento, no meio das inúmeras feijoadas que comi, mas até hoje...nada. 
Ele também fazia um doce de abóbora de comer rezando. E não dava muito trabalho, nem era nada medido - cubos de abóbora, açúcar, um pedacinho de canela em pau, dois ou três cravos, panela com fogo médio tampada, depois de algumas horas jogava o coco ralado, e  estava pronto. Eu comia ainda quente, com fartos pedaços de queijo forte, e no dia seguinte ainda virava um sanduíche criminoso de tão calórico. Outro dia me deparei com uma abóbora bonita, peguei uma receita deste doce na internet, medi tudo, pesei tudo, cubos quase do mesmo tamanho, fogão com temperatura regulada...e não cheguei aos pés do doce que meu pai fazia. Ou a abóbora era insípida, ou o cozinheiro errou a mão mesmo. Ficou uma sobremesa levinha, levinha, quase uma nuvem cor de coral, mas...nem uma pálida sombra do que me era oferecido quando criança. 
Alguns ensinamentos deveriam ser repassados de forma obrigatória para a posteridade - a receita perfeita, o melhor canal de comunicação entre opostos, os processos de ajustamento de uma sociedade democrática, a facilidade de compor rimas e belezas como Chico Buarque - isto tudo deveria ser transmitido ao maior número possível de pessoas, sob o risco de desaparecerem no futuro distante. Lembro do cheiro de galinha depenando, pois eu e meus primos éramos os responsáveis por esta função nos almoços dominicais na casa de minha avó (imagine a cena - matar uma galinha, depenar, limpar, eviscerar, cozinhar e servir tudo num mesmo dia - ou melhor, numa mesma manhã!). Do trabalho de passar as coxinhas na farinha, no ovo e na farinha novamente, antes de fritar. De distinguir a goiaba madura da não tão madura ainda no pé, nas tardes em Santos. De catar o feijão, escolher o arroz, debulhar a ervilha, limpar sardinhas e acender a brasa da churrasqueira e mantê-la na altura e temperatura certas para a delicadeza deste peixe. De rechear e dobras os capeletti, e passar uma mesa inteira de gnocchi no garfo para ele adquirir a curvinha perfeita para melhor receber o molho. Não repassei isto para ninguém, assim como meu pai não me ensinou a forma de fazer o doce perfeito. Mas será que hoje alguém se interessaria em algo que não vem no visor de um tablet ou smart-phone?

Doce de abóbora com coco
  • 1 kg de abóbora de pescoço, descascada e cortada em cubos 1/2 quilo de açúcar
  • 2 pauzinhos de canela
  • 6 cravos-da-índia
  • 1/2 xícara de coco ralado 
Numa panela grande, coloque a abóbora, o açúcar, a canela e os cravos. Leve ao fogo médio, mexendo sempre, até a abóbora começar a soltar água e umedecer o açúcar. A partir daí, abaixe o fogo e vá mexendo de vez em quando. Quando a abóbora tiver desmanchado e a calda tiver engrossado um pouco (leva uns 35 a 45 minutos), junte o coco e deixe mais uns 10 minutos em fogo baixo. Deixe esfriar e guarde em pote com tampa na geladeira.

sábado, 27 de outubro de 2012

ford. tom ford




Adoro ousadias, e Tom Ford sempre consegue ser ousado - foi este elemento que conseguiu no passado levantar a marca Gucci sob sua direção criativa, depois de anos de tédio e balancetes negativos. Com sua sexualidade exp lícita e altíssima qualidade de execução, ele faz o que considero roupas "para mulheres", e não para eternas mocinhas. Eternas mocinhas são aquelas senhoras de idade incompatível com o tamanho de suas sainhas Chanel, por exemplo.
Mas o que faz Tom Ford neste blog? Sua intenção de ser claro. Sua roupa é sexy, poderosa, com poucos mas definitivos elementos - e o vídeo acima é a antítese dos atuais desfiles de moda das marcas mundiais. Ele prefere mostrar suas roupas para um grupo pequeno e seleto, e fazer um vídeo (sob sua direção) que mostra em poucos minutos todo seu DNA - poder, glamour, sexualidade, atitude.
E eu gosto desta posição em relação à gastronomia. Detesto pratos "mocinha" - não prego a brutalidade gastronômica, sempre reafirmo isto - mas não gosto de comida que não me emocione. Sem "punch", sem pegada - nada a ver com quantidade, e sim com essência, com economia precisa de elementos muito bem explorados. Por isso adoro a cozinha de Paola Carosella, do Arturito - consegue uma culinária de precisão e emoção provavelmente com muito trabalho, mas sem frescuras, direta, sensual, sem muitos rabiscos ou firulas desnecessárias. Não aguento mais pratos rabiscadinhos, assim como também não aguento mais ver desfiles onde você não vê a roupa, e sim o "conceito" de um kaiser por detrás da marca. Exceção feita à Alexander McQueen, esse podia fazer qualquer coisa que eu adorava, mas é  porque eu nunca soube explicar o que ele fazia, tamanha sua originalidade. Esse faz falta ainda, apesar do talento de sua sucessora. Portanto... Menos babado e mais pernas à mostra. Menos chapéu e mais desenvoltura. Menos cenário e mais substância. Less is more, gente! As periguetes que o digam - menos pano, mais corpo à mostra. Acho que não usei um bom exemplo para terminar o texto...

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

pretinho básico




Muita atitude as vezes atrapalha...e isto é um mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Quando mudei-me para meu apartamento novo, resolvi não permanecer mais no borralho - toda vez que eu dava jantares em casa, eu ficava metade do jantar na cozinha, metade na sala preocupado com o que acontecia na cozinha. Então, na reforma, decidimos primeiro abrir completamente este ambiente para a sala, para que esta fizesse parte da "ação", por assim dizer. Quebramos tudo,  nem uma paredinha sequer dividindo as áreas, limitada apenas por uma viga no teto e uma diferença de piso. E, para não entrar em conflito com o restante da sala, decidimos que ela seria preta e cinza e cheia de coisas, como o resto da casa. (pausa - por mim ela seria INTEIRAMENTE preta, mas fui convencido ao contrário pela cara metade). Aí foi um tal de procurar os aparelhos mais adequados ao projeto, iluminação que fosse prática mas ao mesmo tempo dramática, toda uma longa série de pequenos detalhes que fariam a diferença. Quando ficou pronto, eu mesmo falei WOW! Ficou muito bom, apesar de ainda estar faltando a coifa, mas os livros que mais uso, as coqueteleiras que adoro, o vidro de farmácia em cristal e os bules ingleses de louça, mais algumas obras de arte e objetos deixaram minha cozinha como uma extensão da sala.




Tudo ia muito bem até o dia seguinte. Uma cozinha de uma casa de pessoas que 1)gostam de comer e 2)gostam de cozinhar, por mais que esteja arrumada, sempre tem uma baguncinha (estou sendo sutil). Esqueça aqueles cenários de programas culinários, onde as panelas aparecem e desaparecem como que levadas por gnomos prestativos. Qualquer jantar para 6 pessoas implica em 12 ou 18 pratos, 12 ou 18 taças, uma montanha de talheres, xícaras, um arsenal de matar qualquer um que, como eu, está elevando o transtorno obsessivo-compulsivo a novos patamares de exigência. Fora a pretensão deste que vos escreve de estar agora enveredando em caminhos nunca dantes navegados, tais como massas, bolos, ou seja - farinha. Este produto tem uma capacidade de se multiplicar num ambiente negro que nenhum físico conseguirá explicar. O simples fato de abrir um pacote novo de farinha causa uma performance moderna - farinha para todo lado. (antes que me chamem de apatetado, não, não estou exagerando e não tenho duas mãos esquerdas...). Agora, fazer gnocchi, nunca mais. Sobrou uma poeira branca nos armários, nas juntas da cerâmica preta, no belíssimo móbile de vidro, no vidro de farmácia, nos puxadores dos armários, na persiana - catástrofe! - no Leopoldo, e só não entrou na geladeira pois a maldita apita quando fica aberta. Parecia mais  o laboratório de um traficante colombiano. Claro que minha fiel escudeira já me proibiu pediu que diminuísse um pouco este ritmo frenético, apelou até para uma intolerância a glúten que eu nunca soube que ela - ou eu - tínhamos.
Sim, black is beautiful na voz da Elis, nos desfiles de moda, no cartão de crédito, mas na cozinha é f**a.

sábado, 22 de setembro de 2012

moderno - uma praga?



Eu não podia de deixar de colocar a colher em panela alheia...leio esta semana que Michel Teló ganhou um prêmio de música (Prêmio Mais Mais, o que quer que seja isto). Em seguida, vejo a atuação constrangedora de todos no VMB 2012, com destaque - em prêmios - para Gaby Amarantos. Não, eu me recuso a compactuar com isto. Não vou falar que gosto do Teló ou da Amarantos apenas para parecer moderno e não soar como careta e reacionário - ao contrário. Acho a música de quinta categoria, as letras (letras?) infames, a estética vagabunda e copiada, não tenho paciência com isto.
Lembrei-me de uma grande amiga, culta até a última raiz de seus cabelos eternamente pintados, que, frente a uma instalação de incensado artista brasileiro - que consistia em fios de lã fazendo pendurados no teto da galeria, desenhando uma parábola - saiu-se com a seguinte pérola : "vamos embora daqui o mais rápido possível. Não gosto de ser taxada de antiga ou burra apenas por criticar um trabalho ruim e pretensamente moderno."
E é isto. Em nome da modernidade, tenho visto muita coisa ruim na MPB. Aquela insuportável da Joelma com seus trinados ridículos, uma grande gama de rappers brasileiros copiando descaradamente o pior do rap/hip hop norte-americano, uma cantora que se denominé "a Beyoncé do Pará" como se isto fosse alguma coisa boa, um cantorzinho insuportável como Luan Santana, bobagens como a grande maioria das coisas exibidas nos prêmios supra-citados. Não são bons cantores, não são originais, e espero estar certo, mas serão página virada na história em breve. No máximo, serão lembrados como coisa "exótica ou kitsch", mas nem isso mereciam. Querem parecer modernos? Sejam originais, mesmo regravando algo ou revisitando um clássico - como fez Kevin Johansen ao transformar a música de David Bowie em outro produto, diferente do original, mas de qualidade.
Isto me veio à cabeça depois de ver por duas vezes um chef que deve ter tirado terceiro lugar em alguma competição -o que deve ter  lhe valido o sobrenome - refazer em um programa horroroso alguns pratos clássicos da culinária popular, sob a estética moderninha. E conseguiu transformar o pato no tucupi - um dos pratos mais marcantes da culinária brasileira - em uma coisa cafona, com um milhão de informações no mesmo prato, com uma bula complexa e de execução pretensamente contemporânea. E todos, com medo de dizer que o o rei está nu, tecem loas e interjeições de espanto, na qualidade de arautos do modernismo gastronômico.
Ser moderno é mais do que isto. É ser ousado com qualidade, perceber a síntese do produto e expô-la, ser radical, irreverente e ousado - mas ser original antes de tudo. E não tentar ser moderno para sê-lo, pois isto é apenas patético. E pretensioso.