food, art & spirits

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quarta-feira, 31 de julho de 2013

da coragem e outras virtudes

Bem, é preciso ter coragem para fazer algo já feito por outrem, sem incorrer no risco da comparação com saldo negativo. E no universo vigente das releituras - como se estas conseguissem o fôlego da criação original - as vezes o caminho toma liberdades desnecessárias.
Lincoln, o caçador de vampiros, é uma daquelas bobagens "da moda" - misturar clássicos da literatura com algo absolutamente trash. O resultado também é outra bobagem.


A über-famosa Monalisa de Leonardo da Vinci, bem como a cena da criação do Universo de Michelângelo Buonarroti, já renderam versões divertidas e/ou pretensiosas.



E falando em pretensioso, minha crítica recorrente - transformar algo perfeito numa "coisa" geralmente cafona, como o intitulado "mago da cozinha" (ô título brega!) fez com o pato no tucupi, um dos pratos mais particulares da culinária brasileira, como pode ser visto - se você tiver paciência e estômago - AQUI. 

Mas eu criei coragem, e fiz uma receita de uma "guru" particular, a Patricia Scarpin do delicioso TECHNICOLOR KITCHEN - brownies de chocolate ao leite. Ficaram perfeitos, e eu ainda ousei colocar nesta receita perfeita um elemento particular, um restinho
de pecãs que tinha no fundo do armário aguardando um fim mais nobre do que o envelhecimento inútil. Sinto, não tenho fotos pois os brownies tiveram saída súbita. Mas segue a foto do original, para abrir o apetite e a curiosidade deste blog de receitas e textos deliciosos.

Mas ainda me falta a coragem de assumir uma empreitada - copiar o cuscuz de camarões que minha mãe fazia. Era tão perfeito em sua textura e sabores, apimentado na medida certa, nem seco nem muito molhado, bom de tal forma que eu abria a geladeira e, se me deparasse com uma (raríssima) sobra dele, tirava largas fatias  e comia gelado mesmo, inclusive em horas impróprias como de madrugada ou antes do café da manhã. Ela não tinha medidas exatas para este prato, portanto a receita me foi legada na forma da lembrança, dos momentos em que eventualmente ajudava ela na mistura das farinhas de milho e de mandioca, ou na decoração da forma, ou experimentando várias vezes antes do término afim de acertar o sal e a pimenta.
Vou encarar este projeto no próximo final de semana, já com a certeza de não alcançar o resultado esperado. Pois sempre falta alguma coisa para matar cem por cento a saudade.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

the meaning

Outro dia, em casa de comadre, vendo uns videos de Viktor Frankl, que tenta explicar, de forma empírica, o "sentido do sofrimento". Em uma frase lapidar, explica uma equação :

Desespero = [Sofrimento - Significado]

Busca colocar em situações de perdas ou privações um sentido que explique este momento. Fui para casa de cabeça cheia, embora não consiga enxergar de forma intelectualmente aceitável um sentido para algumas perdas dolorosas em  minha vida. Mas comecei a pensar no significado de muitas coisas, depois de acessar vários vídeos e pesquisar uma infinidade de textos deste psiquiatra austríaco, fundador da escola da Logoterapia.
Pausa...
Um doce explicado pela chef na televisão, em um reality show de gastronomia. Nome do prato - trio de morangos em 3 estados (líquido, sólido e ...?). Uma mousse de morangos envolta em um canudo de chocolate branco, cercada por morangos escaldados em cítricos, enfeitada com uns brotos de agrião repousa sobre uma fumegante poça vermelho-sangue feita com morangos e nitrogênio.  A intenção - segundo a autora - era fazer uma sobremesa com cara de prato principal (um canelone...) utilizando o morango em 3 versões. Qual o significado disto?
Mais um doce - uma "torta desconstruída" - na verdade, uma pincelada grossa de uma calda amarelo-limão sobre uma placa de porcelana branca; sobre esta calda, pedaços esfarelados da massa. Pedacinhos de manga e outra fruta amarela (acho que era carambola, mas estava tão pequenininho que não saquei o que era), mais uns pingos da polpa de um maracujá enfeiavam  enfeitavam o - vá lá, prato -  sob o olhar complacente de seu autor. Procurei o significado desta bagunça visual, e não entendi.
Um prato salgado, para variar - um cubo perfeito de carne suína de aproximadamente 1" x 1" (sim, 2,54 cm) repousava sobre mais uma pincelada de uma redução de porto, ameixa e caldo de pato, encimado por mais uns brotos de agrião (sobraram da receita da outra sobremesa?) e cercado por cubinhos minúsculos de nabo, cenoura e trufas -  a trufa cortada em cubos foi estranho de ver - e outros cubinhos igualmente microscópicos de uma gelatina feita da redução do caldo. Era um prato cubista, de tanto cubinho...(infame, eu sei...). Tempo de preparação do prato, em torno de 26 horas - para ser deglutido em poucos segundos, face à sua condição diminuta. Novamente pensando no significado deste prato trabalhoso e ligeiramente cafona...
De repente, uma prosaica sopa de beterraba feita da mesma maneira que eu faço - com a beterraba assada no forno lento, envolta em papel alumínio - foi servida sem muitos enfeites, a não ser um rabisco branco de creme azedo e um verde de um óleo reforçado de alguma erva - fez-se soberana, pois todos os comensais foram unânimes em dizer que era um prato perfeito, sutil porém rico em sabores e aromas, com cocção  e temperatura perfeitas. Foi o prato mais elogiado de uma longa sequência de degustação, em delicioso paradoxo. Significa?

sábado, 13 de julho de 2013

a grande abóbora

Meu querido amigo Allex C.me fez um convite - fazer uma produção para uma foto no próximo número da revista na qual é editor, e cujo número enfocava o tema comida. Ele tinha gostado especialmente de uma parede do GabineteD, e meu trabalho seria fazer nesta parede um cenário para a abertura do tema nesta veículo (que não vou dizer o nome agora, só quando sair ok?).
Minha idéia original - uma "instalação" feita de uma verdadeira montanha de pães - se mostrou ineficaz, pois não tinha contraste nas cores. A parede era cinza, o piso também, e o teste que fiz com os pães ficou muito sem graça. Isto posto, corri ao mercado em busca de inspiração - já pensando em comprar frutas, fazer uma coisa meio tropical. No meio do caminho, pensei em usar tomates no cenário, mas como eles estavam muito em evidência no passado recente em virtude de seu preço alto, resolvi procurar outra coisa. E deparei-me com umas morangas lindas, de vários tamanhos. Comprei todo o estoque (mesmo porque o preço era convidativo - R$ 0,98 o quilo!), ou seja - quase 70 quilos de abóbora...
(Não vou postar a foto aqui agora - somente depois que sair na revista. Mas segue um pedacinho dela...)
]]
Senti-me como Linus em meio a uma plantação de abóboras pré-halloween, esperando "A Grande Abóbora" (para quem não sabe do que estou falando, ver AQUI)
Mas sobrou um problema...o que fazer com toda esta abóbora?
A noite ontem estava fria. Uma sopa de abóbora com roquefort caiu muito bem. Vou procurar uma receita de pumpkim cheese cake, e me aventurar nestes mistérios. 

Enquanto escrevo isto, sob os efeitos de um excelente Chianti que abri para acompanhar a sopa ,
um panelão na cozinha está em pleno processo de transformar cubos de abóbora, açúcar e paus de canela em um doce tipicamente brasileiro.  Uma lasanha de abóbora (com fatias desta no lugar da massa - no carbs!) está prevista para o decorrer da semana. Camarão na moranga também. Risoto de Zucca (já postado AQUI) também está na fila. Alguém mais tem receitas com esta hortaliça?
Ou será que corro o risco de desenvolver uma intolerância à abóbora...?

Sopa de abóbora com roquefort
01 quilo de abóbora (no caso, moranga) cortada em cubos
01 alho poró cortado em fatias finas
03 colheres de sopa de óleo de avelãs
01 colher de sopa de azeite de oliva virgem
1,5 litro de caldo de legumes
150 gramas de roquefort ralado grosseiramente

Refogue o alho poró na mistura do azeite com o óleo. Acrescente a abóbora picada, refogue até ela tomar uma cor mais intensa. acrescente o caldo de legumes e cozinhe por aproximadamente 30/40 minutos, até que a abóbora esteja desmanchando. Retire do fogo, bata no liquidificador e volte ao fogo. Cuidado com o sal, pois o queijo já é bastante forte. Acrescente pimenta do reino branca a gosto, coloque o roquefort ralado, mexa rapidamente e sirva imediatamente com um fio de creme azedo. Gosto de colocar avelãs picadas e tostadas em cima, mas não tinha - então foi uma salsinha...e se isto não é uma rima, pelo menos foi uma solução.






quinta-feira, 4 de julho de 2013

singing&drinking&thinking

Mania de cozinhar à noite. Talvez por isso a maioria das minhas fotos não seja solar, tendo todas como fundo o mármore e a cerâmica de minha cozinha, ambos negros. E não concebo estes momentos sem bebida. E sem música. E tenho uma longa sequência de drinks - que invariavelmente estão ligados ao cardápio a ser executado, ou então influenciados pelo som que sai alto de meu laptop ou Ipad, para provável desespero de meus vizinhos. 
Noites atrás, rhum & coke & Roberto Fonseca, grande (em todos os sentidos) pianista cubano. Exagerado, latino, exagerado mesmo - e eu exagerei na mistura de rhum cubano com coca cola (não diet, o que é pior) e limão. Comecei fazendo uma lasanha de abóbora, para evitar o carboidrato - mas não lembro o que terminei fazendo, tamanho o teor etílico. Mais um pouco de cubanidade e começava a gostar de Fidel... 

As vezes invento de fazer receitas bem complicadas para o adiantado da noite - tais como um ragu de peito bovino. Meus acompanhantes nesta lida foram duas garrafas doses do ótimo Meia Pipa, vinho de excepcional qualidade da veneranda casa Quinta da Bacalhôa. De sabor pungente e aroma expressivo, acompanhava um naco expressivo de parmigiano e imensas e ligeiramente amargas azeitonas gregas. Quem me acompanhava nesta solitária orgia eram, além de Leopoldo, fiel escudeiro -  meu ídolo David Bowie (GOD SAVE THE KING!). Uma mistura perfeita - e inebriante. Em todos os sentidos, pois as 3:30 da matina fui dormir com os sentidos totalmente ligeiramente embotados pelo excesso de vinho e trabalho. 

Numa noite quente, gin tônica ajudava a adiantar o jantar do dia seguinte, para 35/40 pessoas em minha casa. Cardápio pronto -  e como prato principal o boeuf bourguignon com farofa de milho verde já alertava para o caráter desprovido de preconceitos de meu menu, misturando um clássico francês com o básico afro-brasileiro. E a mistura das vozes e dos sotaques de Jorge Drexler e Suzana Félix reforçava esta falta de fronteiras. (Fora o fato de que eu adoro este vídeo...)
 
Chego em casa e uma caixa com um presente de meu compadre me animou: algumas garrafas de Murphy´s Irish Red Beer, ótimas de tal forma que me fizeram incluir esta cerveja no recheio da Shepherd´s Pie - e garanto que a carne ficou fantástica com este adendo. Claro que meu julgamento estava ligeiramente influenciado pelo teor alcóolico da noite, mas garanto que este elemento adicionou um sabor especial, assim como a voz  e o ritmo de Roland Gift emprestam sabor a qualquer gravação. E Funny How Love Is me traz lembranças de noites memoráveis, intensas como a cerveja que eu tomava.


E, numa noite abafada de pré-inverno, e preguiça da boa, uma prosaica caipirinha de abacaxi para começar o jantar me forneceu ingredientes para uma sobremesa antiga, que minha tia fazia sempre - um doce de abacaxi com creme inglês e suspiro por cima. Esse prato me trouxe lembranças de um tempo em que passava as noites com meu primo, ouvindo o novo LP (para aqueles que não sabem o que é um LP - é o pai do CD, e tocava música dos dois lados...) do Milton Nascimento ou do Pat Metheny, entre copos de cerveja ou vinho pouco respeitável e uma infinidade de bobagens sendo ingeridas e/ou ditas. Por melhor que estivesse o drink, a noite terminou com um retrogosto amargo, causado pela lembrança de alguém querido que não mais está por aqui. 


As vezes a cozinha fica apenas de cenário, quando bate uma vontade de ficar em casa sem compromisso, sem ligar para ninguém, nem se conectar com nada - apenas bebendo algo suave como uma cava rosé, e ouvindo algo igualmente suave como a voz de Matthew Santos.
 
(Será que a ciência vai conseguir desenvolver um fígado auto-limpante? Acho que estou precisando...)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

italianices

Chegando muito cedo no aeroporto de Recife - eu saíra de casa de madrugada para pegar um voo às 06h40m, portanto não tinha tomado nem um cafezinho, sequer um iogurte. Estava faminto - a primeira refeição me é muito cara, acordo com uma fome ancestral, e a falta dela me deixava com uma ligeira dor de cabeça. Decidi tomar um café ali mesmo, no Café São Braz, que tem um bolo de milho muito bom. 
No balcão, a atendente anota meu pedido com imensas, quase apoacalípticas unhas verde-amarelas. Logo cedo...

- Bom dia, por favor, um café com leite grande e um pedaço de bolo de milho.
- O senhor quer um espumone grande, é?
- Uhn...?
- O senhor quer um espumone grande, é? (falando mais alto, afim de que eu realmente entendesse o que ela estava falando).
- Não, eu quero um café com leite grande e um pedaço de...
- Aqui café com leite é espumone, sabia não? 
- Não, eu não sabia. Se você me garante que este espumone é um café com leite comum, eu aceito.
- É sim, só que em italiano.
- Uhn...?
- Espumone é café com leite em italiano (novamente com um aumento de decibéis, como que para compensar minha cara de lesado dependente de cafeína com claros sinais de abstinência).
- Olha, eu não sei quem te falou isto, e eu acredito que você foi treinada para acreditar, mas decididamente não é italiano.
- É sim, é por causa da espuma do leite.
- Spumone é uma sobremesa italiana feita de 3 ou mais camadas de sorvete, as vezes com frutas cristalizadas ou castanhas, pistache, etc. - o que aqui no Brasil gerou um primo mais pobrezinho, que costumam chamar de Napolitano. Mas nunca foi café com leite, acredite em mim.
- KERRYANNE (berro que ecoou pelo saguão do aeroporto), pelamordasanta, atende este homem aqui que hoje eu não estou com paciência!
(foto do il vero spumone italiano) 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

the cheese is on the table

Mini divagação 
no cardápio:
entradas e petiscos
- queijo de coalho na brasa com mel de engenho - bom, muito bom...


- salada tropical com camarões, manga e queijo "muçarella" - no, thanks.
- camarões aos quatro queijos - idem acima
- picadinho de filé com fritas ao cheddar e bacon - definitivamente, este é um acompanhamento heavy metal!
- bolinho de camarão com catupiry...("moço, tem sem catupiry?")
- frango aos quatro queijos gratinado...
- frango de leite assado com queijo...muita lactose numa só frase.
- pão de alho assado com queijo...
- filé na brasa com queijo...
sobremesas
- cartola . UEBA!!! (cartola é um doce típico pernambucano, com banana, queijo manteiga, muito açúcar e canela)
( a quem interessar possa - é super light #sóquenão...)

- doce de goiaba com creme de leite...

Desconfio seriamente que este restaurante à beira mar seja patrocinado por um laticínio.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

vênus em recife



Havia acabado de ler que "O Nascimento da Venus", de Botticelli, fora originalmente encomendado pelos poderosos Medici para dar de presente a um parente próximo, para ser colocado sobre a cabeceira do leito nupcial, e cuja encomenda solicitava especificamente um quadro de tema sensual ou erótico - daí uma das pinturas mais conhecidas do mundo. Representa Vênus,que nasceu adulta e bela. A deusa do amor, da beleza e da sensualidade nasceu do sêmen de Urano (o Céu) caído na espuma do mar - portanto, é uma filha dos elementos água e ar. E este tema e esta pintura, guardada e exibida na Galleria degli Uffizi, em Firenze, proporcionaram um delicioso jantar ontem, em Recife. 
Convidado pelos meus amigos Sr. N.B. e Sr. A.M.(na verdade fui bem sutil - vamos jantar lá qualquer dia?), fomos em quatro pessoas ao Kovacic A Cozinha, restaurante privado com menu fechado e dirigido pelo dono (Sr. Kovacic - telefone 81 9612-7776), cujos jantares são inspirados em temas distintos. Já havia ido a este lugar uma vez, convidado pelos mesmos amigos, onde tive uma noite memorável. Desta volta, um jantar em tons mediterrâneos, com os sabores distribuídos entre 7 pratos. Começamos com o pé direito, em uma versão dos italianíssimos arancini - bolinhos feitos com risotto, redondos e dourados como pequenas laranjas - daí seu nome. Nesta versão, ele veio banhado de um caldo de carne e ervas de sabor pungente, ligeiramente cítrico - em perfeita combinação com os bolinhos de arroz.
Em seguida, um prato de aparência estranha, mas que simulava a forma como a Vênus foi concebida - uma tapenade morna de azeitonas pretas com linguado, sobre uma base / massa feita de gergelim. Deliciosa...
O terceiro prato foi o ponto alto da noite - uma moussaka, a tradicional "lasanha" grega, feita de cordeiro, berinjela e bechamel.. Aqui, as fatias de berinjela foram grelhadas com um pouco de gordura de pato, conferindo um sabor mais intenso a este prato. E o tomate veio confitado e tostado, cheio de especiarias, uma pequena e perfeita torre circundada por um bechamel delicioso.
A seguir, um peixinho prosaico, com uma calda adocicada de mel de laranjeiras, com uma batata coberta de alho defumado - pediria este alho para botar em tudo, de tão bom. Acompanhavam folhas cruas de couve rasgadas.
O quinto prato exibia um acompanhamento que foi devorado pelos comensais - um pequeno medalhão de filé, com um molho espesso salpicado com pistache e fatias de pão sírio fritas, sequinhas. Nenhum pingo de gordura, nada indicava que aquelas tiras - que pareciam macarrão cru - haviam provavelmente sido fritas em abundante óleo.
E, last but not least, uma ave - um "guisado" de galinha com sementes de girassol e uvas-passas, novamente contrapondo a ardência com sabores adocicados. 
Finalizou uma espécie de bolo/mousse de chocolate, aveia e pistache com uma calda similar a um mingau, com pistaches ralados (como ralaram tanto pistache, não sei...) 
Em um lugar simples, com talheres simples e elegante louça branca, uma bela jovem de pés descalços, túnica preta e turbante branco ajudava o serviço, completando nossos copos com água e com os vinhos que havia levado. Uma música insólita e desconhecida tocava ao fundo, e eu ainda conseguia me lembrar da explicação do chef no início, ligando os pratos com a Vênus e com um texto de Garcia Lorca.  Saímos felizes, fartos de comida, bebida e histórias. A chuva que caíra lá fora parou no momento em que saímos do restaurante, como que para coroar esta junção de histórias. Uma ótima noite, excelente noite. Tks aos amigos N.B. e A. M., para sempre queridos.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

if nothing else...

Por uma boa causa, afastei-me da blogsfera nos ultimos tempos. E a causa tem um nome - Gabinete D.

Depois de 21 anos prestando serviços a uma empresa, e ao sair voluntariamente desta ter a exata noção do tempo perdido (quem trabalha feito um maluco para que outro ganhe créditos e dinheiro deve ser maluco mesmo), decidi - junto com meu companheiro de empreitada e vida Eduardo - abrir o GabineteD, uma lojinha pequena na Al. Tietê, intimista nos jargões de press-release, mas na verdade fisicamente pequena. Ficou muito legal, simpática, as pessoas adoravam - mas quando tinha mais de um cliente, a loja tumultuava. Aliás, só com um cliente ela já tumultuava mesmo...Fora o fato de que não tinha onde parar carro, o que em São Paulo é a escada para o cadafalso do comércio. 

Aí conseguimos uma casa legal, que não deu certo, então arranjamos outra casa legal, que também não deu certo, mas os deuses conspiram a favor de todos aqueles que, como nós, continuam tentando. Eduardo conhecia um lugar de uma amiga, uma galeria de arte linda e pouco conhecida. Mostramos ao nosso sócio Sr. O, que vislumbrou naquele espaço possibilidades enormes de crescimento. E pouco tempo depois de assinado o contrato, abrimos o GabineteD Objetos e Imagem - um espaço composto de duas partes distintas - uma, a Galeria de Arte, espaço limpo, claro e solene, inaugurado com a exposição de um jovem fotografo chamado Alberto Oliveira. 
Ao subir a escada vermelha, o oposto - uma feérie de cores móveis objetos e peças das mais variadas origens e épocas traduz o espírito do GabineteD - um lugar iconoclasta, aberto às mais variadas manifestações do design e da cultura deste, do popular ao erudito. 
Onde o clássico e o moderno se encontram, onde o design assinado divide espaço com a produção popular, um apanhado de coisas distintas sob a égide do conceito original - a falta de preconceitos e a eliminação total de dogmas, baseado unicamente no binômio qualidade e originalidade.



Conhecemos nossos novos sócios - e agora queridos amigos - Sr. A e Sr. O (já citados aqui no blog) pelas redes sociais. Eduardo descobriu o artista que inaugurou nossa Galeria pela rede. Então nada mais natural do que manifestar minha satisfação e orgulho pelo mesmo veículo.
Sim, estou orgulhoso do trabalho que fizemos. Faremos de tudo para transformar este espaço num ponto de encontro e referências nos assuntos arte, design, cultura  e afins. Estamos pensando nos mínimos pormenores - afinal, "God is in the details", como disse o mestre.


Estão todos convidados. A casa está sempre aberta, como deveriam ser todas. 
Gabinete D Objetos e Imagem
Rua Estados Unidos 273
Jd. Paulistano   São Paulo, SP
t.: 11 4328-0070
www.gabineted.com.br

segunda-feira, 22 de abril de 2013

fifty shades of green


 E eu cooptei. Cedi aos encantos do maldito trocadilho para o titulo deste post, com o intuito de chamar mais facilmente a atenção do leitor. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Mas é que esse título não me saía da cabeça desde que comecei a insólita dieta da sopa verde, recomendada por minha comadre M. Ela havia me dito que tinha emagrecido 4 quilos (não sei de onde, pois já é magra a peste!) em poucas semanas, fazendo uso de uma sopa feita de verdes todos os jantares, exceto domingos. Como gosto de sopa, e em casa exceto Leopoldo, meu fiel escudeiro, todos precisavam perder peso, encarei a rotina de criar sopas verdes sem um sabor monocórdico.
Comecei com uma prosaica sopa feita de músculo, abobrinha, chuchu, aipo, cebolinha e couve. Apesar dos temperos, achei que faltava algo. No dia seguinte, uma sopa de espinafre adaptada do Low Fat Cooking, que ficou ainda mais light com a substituição da batata por chuchu e a ausência do leite pedido na receita. Refoguei parte do espinafre com alho, cebola e azeite. Adicionei caldo de frango, chuchu, aipo e, após tudo cozido, bati no liquidificador. Coei, adicionei peito de frango desfiado (com que tinha feito o caldo), folhas cruas de espinafre e servi - ficou ótimo. No terceiro dia, uma sopa de acelga, couve, chuchu (novamente...),cebolinha em caldo de legumes. Senti um certo vazio no decorrer da noite - e não era existencial, era substancial...
No quarto dia, trapaceei. Uma sopa de ervilha - afinal, é verde! - com costelinha defumada. A taça do ótimo tinto Meia Pipa ajudou na trapaça. No quinto, outra sopa de coisas verdes...No sexto dia, tinha a impressão de estar virando um Hulk subnutrido. Pensei em trapacear com caldo verde, mas tinha tido uma orientação especifica do tipo "não vale caldo verde, ok?"...Nova sopa com abobrinha, coisas verdinhas, e não adiantava mudar o prato, o bowl, o que fosse - parecia um cardápio orientado pelo Grinch .

A essa altura da dieta, tinha a nítida impressão de que se o Brad e a Angelina me chamassem para trás de uma moita, eu comeria a moita. No décimo dia, novo logro - uma massa verde recheada de alcachofra. O prato era verde, o recheio verde claro, mas quanta diferença...
Ao largo de 10 dias, após encarar o visor da balança - para ver o resultado deste eco-desafio, liguei para a mesma comadre. Ela me perguntou
- " E aí, Wair, depois de 10 dias, perdeu quanto?"
respondi de pronto
- " Perdi 10 jantares..."

quarta-feira, 20 de março de 2013

duplas dinâmicas

café com leite
pão com manteiga
goiabada com queijo
arroz e feijão
caviar com vodka
aliás, qualquer coisa com vodka
prince e stylistics
salmão com endro
fish & chips
cerveja com praia
ovo com trufas
prosciutto com figos frescos
figos com queijo de cabra
dame shirley bassey & propellerheads
tequila e limão
chardonnay e ostras
frango com farofa
burger & diet coke
burger & beer
pastel e caldo de cana
jorge drexler e susana félix
brigadeiro com guaraná
chocolate quente e inverno
coalhada com zattar
azeite com zattar
tequila e limão
water and flame (daniel merriweather & adele)
rhum and coke
gin & tonic
morango com chantilly
canja de galinha e cautela
acarajé com pimenta
cocada não precisa de mais nada
assim como elis regina





sábado, 16 de março de 2013

aquiles

Então sábado passado teve uma megasuperhiperultra festa na casa de meus amigos A. e O, queridos. A casa estava linda como sempre, mas enfeitada de flores vermelhas por todos os cantos. Manobristas à porta, champagne na chegada, canapés deliciosos - enquanto um DJ desfiava um setlist que incluia Earth Wind & Fire, Marvin Gaye e Prince, delicioso. Um chef que ainda não conhecia - Alexander Garcia - era o responsável pelo cardápio, e esmerou-se com afinco. Sobre a mesa, uma salada de base crocante com queijo de cabra e mini-legumes grelhados convivia com uma mousse de roquefort e figos turcos, mais uma quiche de cogumelos deliciosa, uma torta cuja massa tinha manjericão recheada por mozzarella de búfala e tomatinhos era uma versão assada da salada caprese, blinis com ovas de salmão perfeitos, e um "domo" de salmão com mini-beterrabas assadas absolutamente incrível. Perto da piscina, dois jovens magros e cabeludíssimos (odeio gente magra e cabeluda ...#ainvejamata...) estavam encarregados dos drinks e caipirinhas de lichia, morango, limão, kiwi e abacaxi - praticamente uma orgia gastro-etílica da maior categoria.
As sobremesas eram acintosas - e aquela "Sunset Party" foi adentrando a noite, o nível etílico subindo, a minha cintura aumentando face às opções gastro/etílicas, novos amigos sendo feitos, uma noite como deveriam ser todas as noites : bebidas, amigos, música, alegria. 
Então eu resolvi agradecer de uma forma muito simples - oferecendo um jantarzinho em casa. Mesa posta,
champagne gelada, um ótimo tinto - Cartuxa, que adoro - um late harvest esperava a sobremesa...e eu invento de última hora um prato com um fator complicante. Claro, eu tinha que complicar... Já havia feito o risotto um dia antes, para transforma-lo em riso al salto. O ragu para acompanhar o risotto estava pronto. A sopa de cenoura com gengibre e especiarias também tinha sido feita na noite anterior, para tomar mais gosto e ardência.

A mousse de manga e iogurte, levíssima, repousava em taças de dry-martini esperando apenas o tartare de manga e pimenta dedo-de-moça para coroar a sobremesa.

E eu vi uns aspargos lindos, verdes, e falei - Eureca! Aspargos com uma espécie de farofinha de pancetta, pão, parmesão e raspas de limão coroado por um ovo pochê...Aliás, cinco ovos pochês, pois eram cinco pessoas.
Mas eu e o ovo pochê somos inimigos mortais...Dias antes tinha me encontrado com meu amigo Bergamo, (que me deu este livro ótimo)
e havia comentado minha inaptidão para com este prato. Ele me deu as dicas, e ainda disse que podia cozinhar os ovos dentro de um saquinho untado, como visto pelo Prato Fundo. mas eu sou teimoso estóico, e quis fazer da maneira tradicional...
O primeiro ovo transformou-se numa espécie de fantasma dentro de minha panela, com um milhão de ramificações flutuando aleatoriamente. Lembrei-me da dica da temperatura da água dada pelo Bergamo, abaixei a temperatura, coloquei o vinagre, e agora meu segundo ovo pochê parecia um mini polvo albino, boiando na panela com seus 8 tentáculos...Nova tentativa. Quebrar o ovo numa tigelinha. Derramar ele lentamente na água, queimando a ponta dos dedos. Reunir a clara lentamente tentando dar forma decente ao ovo. Achar que o resultado está quase pronto, e ao tentar retirar descobrir que conseguiu a proeza de colar o ovo no fundo de uma panela que contém apenas água e vinagre...
Aí tive a idéia fantástica. Pegar um coadorzinho de chá de forma esférica, crendo que- como a clara era mais densa do que o líquido, com a água quente ela ia ficar mais densa ainda e tornar-se uma esfera perfeita e branca, contendo uma gema liquefeita. Na teoria, podia funcionar - em alguma realidade paralela, claro. Na prática, perdi um coador de chá, visto que um milhão de cabelinhos brancos acabou saindo pelos furinhos, e eu nunca mais terei condições de fazer chá neste recipiente novamente...
A esta altura, tocou a campainha. Eu já havia desperdiçado quatro ovos, e apenas 5 restavam na geladeira. Não tinha mais margem para o erro - ou erros, no plural mesmo. Mudei a receita - vide prato abaixo - para uns ovos quentes, com a gema densa, com umas lascas de flor de sal. Meu segundo prato não ficou aquela maravilha, apesar da farofinha ser deliciosa e dos aspargos perfeitamente no ponto. Mas meus amigos são muito elegantes, e não reclamaram. Mesmo porque eu ainda tinha dois pratos para me redimir do fiasco...Para vocês terem uma id~eia, até a foto saiu fora do foco!
Na próxima, farei souflée. Ovos nevados. Fios de ovos. Paté en croute. Mil folhas. Qualquer coisa mais simples que ovo pochê...

segunda-feira, 4 de março de 2013

uma longa caminhada


Ainda em Recife, domingo. Decidi fazer uma caminhada - uma loooooonga caminhada. Saí de Boa Viagem e fui caminhando, caminhando, caminhando...passei pelo bairro de nome divertidíssimo - Brasilia Teimosa - com sua arquitetura peculiar, carros com os porta-malas abertos recheados de alto-falantes (verdadeiros trios elétricos em miniatura) disseminando toda sorte de música ruim em som idem, montanhas de carrinhos fazendo de batatas-fritas a bolinhos fritos e peixes fritos e mais uma montanha de coisas fritas, tudo isto em uma área que tinha o perfil perfeito para ser um polo turístico de beleza inconteste. A calçada quase inexistia, paisagismo zero, sequer uma plantinha mirrada. E eu andando, andando...

Num dado momento, este braço de terra - não sei se configura um istmo, mas parecia - tem pouco mais de 5 metros de largura. De um lado, um paredão de concreto e pedra e o mar aberto, imenso, oceano. Do outro o Rio e a vista do centro da cidade e do Cais Estelita. 
E eu andando, andando...
Cheguei no parque de esculturas Brennand. Ligeiramente abandonado, apesar de ter sido construído não faz muito tempo. Uma placa mostrava data de fundação, arquiteto responsável, paisagista responsável - e novamente procurei um jardinzinho, uma plantinha, uma muda sequer - nada...(Estranho a falta de paisagismo numa cidade de calor inclemente como Recife). Então peguei um barquinho e atravessei até o Marco Zero, para fazer um lanche no Boteco, de minha amiga MD. Mas estava lotado, com fila de espera - e eu já com fome, sede, e as pernas pedindo um pequeno descanso depois de pouco mais de 11km andados.
Peguei o barquinho de volta, atravessei aquela água prateada pelo conjunto de sol e dia nublado, em dia branco cegante, 


e decidi dar uma parada na Casa de Banhos, que conheci recentemente. Um boteco à beira do Rio, coberto de telhas de cimento amianto , com dois ótimos cantores desfiando um repertório de MPB da melhor estirpe. Pedi uma mesa no lugar lotado, para um - e o garçom me olhou com cara de "tá me gozando, não?". Como não esmoreço, esperei alguns minutos até conseguir uma mesa no meio da muvuca. no centro do restaurante, entre duas mesas imensas e barulhentas. Pedi uma cerveja gelada, e um caldinho de peixe. Correção - "o" caldinho de peixe. Delicioso, cheio de aromas sutis, sem um mísero pedacinho de osso ou espinho, fantástico. Pedi outro, e a esta altura os 600ml da cerveja já tinham misteriosamente evaporado.

Tempo para uma caipirinha de rum e o segundo copo de caldinho estava igualmente perfeito, quente sob o teto quente numa tarde quente. A caipirinha desceu perfeita, o doce do rum e o azedo do limão, e eu cada vez mais imerso na música que tocava, nos sabores que provava esquecendo o mundo à minha volta.
Peço duas agulhas fritas - recuso a porção inteira pois tinha uma longa caminhada de volta. 
antes
depois

E uma nova cerveja. O restaurante estava misteriosamente silencioso - embora eu olhasse as pessoas falando, agitadas, eu só ouvia a voz suave do cantor, o violão e o pandeiro, e o barulhinho da água batendo sob o restaurante. 
Nesta hora o cantor dá uma parada, eu levanto um brinde solitário a ele - parece que ninguém o ouve, somente eu - que retribui o brinde e ataca com uma música que eu não ouvia há muito. E que tem a frase "mais solitário que um paulistano" encaixada em seus versos de forma perfeita. Como se encaixou igualmente ao momento, pois eu estava sozinho no mundo naquele momento. 

Pedi a conta. Gozação comigo não! (mesmo porque ainda tinha 11 km de caminhada na volta...)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

versatile awards

Graças ao Serginho Tavares, do ótimo blog Justo e Digno, ganhei o selinho ao lado. Já chamaram meu blog de diferente, prático, até de fofo (que eu achei muito estranho, confesso...), mas ganhar o "Versatile Awards" foi ótimo. Portanto, seguindo as regras do concurso que me elegeu, terei que sugerir 15 blogs que se encaixem no perfil, e também citar 7 coisas sobre minha pessoa.
Portanto, lá vamos
1) falo muito rápido e baixo - a maioria das pessoas não entende na primeira vez, e algumas nem na segunda.
2)adoro rhum and coke...old fashion, eu seu. Mas what the hell!
3)vivo em eterna briga com minha balança, embora disfarce muito bem nas fotos - anos de prática.
4)adoro Elis Regina. 
5)tenho uma péssima memória, o que me assusta as vezes - aliás, me assusta sempre. Mas em compensação guardo números com muita facilidade - contas bancárias, senhas, cpfs e cnpjs, números de documentos, de telefones, falou em número é comigo - exceto datas, que também não me lembro.
6)tenho pânico, pavor de dentista.
7)sou um otimista incurável com tendências à procrastinação, tentando reverter isto.
Ufa!! Quase um mea culpa... Agora, aos blogs. Estou com dificuldade de encontrar 15 que se encaixem no perfil tanto da proposta quanto de meu blog, realmente destinado ao universo culinário. Mas, vamos lá.
Muque de Peão, do ótimo Luciano Guimarães
Marta Matui (citada para ver se ela volta a blogar)
Thiago Lasco - bissexto, mas ótimo
Ponta de Punhal, da Margot
Justo e Digno, claro!
Cheguei a 11.Prefiro Top Eleven a Top Fifteen...
Abraços, e bom final de semana para todos.



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

café com leite

Parei de tomar leite, de tanto que me disseram que depois de adulto, era bom diminuir o consumo deste. Meu breakfast hoje reduziu-se a um pedaço de fruta, uma xícara imensa de café preto e meio pão francês integral (ou um inteiro, dependendo da fome do clima) e prosaicas fatias de queijo. Muito raramente, à tarde, um café com leite pequeno para aplacar a ansiedade entre as refeições (se eu pego quem inventou o termo e/ou conceito dieta eu sou capaz de cometer um crime...). Mas do pouco que me recordo de minha infância e pré-adolescência, lembro de tomar uma espécie de "sopa" de café-com-leite onde derrubava-se pedaços de pão, geralmente em frente à TV vendo filmes de terror ou de mistério. Em priscas eras, quando visitava minha avó paterna em Catanduva (interior de São Paulo), tomava leite com Toddy em umas canecas que imitavam um barril de madeira, kitsch até toda prova, mas que eram disputadas a tapa pelos netos. Em noites de insônia precoce, uma caneca de leite morno bastante adoçado com um tiquinho de canela. Mingau e um grosso chocolate onde colocava ainda pedacinhos de chocolate em barra no fundo da xícara. No verão, chocolate batido no liquidificador, gelado, com bastante espuma. E, vez ou outra, um milk-shake caseiro intenso,  onde misturava leite, sorvete de morango e morangos em pedaços, entupindo o canudinho (naquela época não tinha variações de diâmetro para canudo, acreditam?).
Mas de vez em quando mato esta vontade/saudade de outras formas, como na sobremesa que fiz recentemente em casa - um pudim de capuccino, que nada mais é do que um pudim de leite com café. E que, apesar de simples e trivial, faz sucesso em refeições descompromissadas - como deveriam ser todas, afinal.

pudim de capuccino
(para seis a oito pessoas)

1 lata de leite condensado
2 latas (utilizar como medida) de leite integral
3 ovos
1 colher de chá cheia de café solúvel
8 colheres de açúcar refinado

fazer um caramelo seco com o açúcar - se ficar mais escuro, ficará mais amargo. quando claro, mais adocicado. "untar" uma forma de buraco no meio com este caramelo.
bater o leite com o leite condensado, as gemas e o café solúvel no liquidificador. derramar gentilmente na forma untada, e colocar para assar em banho-maria a 180º por aproximadamente 40 minutos. fazer o teste do palito para ver se está cozido, esperar esfriar para desenformar. aqui, servi com uma farofa feita de paçoca e um tico de flor de sal, para quebrar o doce. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

For what is a man, what has he got?



Não posso dizer que fiz tudo do meu jeito - talvez pelo meu modo cordato de levar a vida. Ela já me deu muita porrada violenta, não dava para toda hora ficar batendo boca com a dita cuja - portanto era mais fácil ouvir os desaforos e seguir caminho. Mas deu mais certo do que errado - e agora, na segunda metade de minha vida (sim, os 100 anos são os novos 70 - dona Canô e Niemeyer comprovaram isto), exatamente no primeiro dia do ano de 2013, tive um longo momento de silêncio absoluto, o que provocou uma gritaria interna pedindo decisões para esta segunda metade.
Não estou querendo mais conquistar posições - estou querendo ter tempo para os pequenos prazeres.
E também para me proporcionar coisas novas, geminiano que sou - o que quer que isto signifique, pois não sou um conhecedor de astrologia.
Sempre me foi difícil acompanhar ao pé da letra um plano diretor - inclusive dentro de minha profissão, ainda mais na vida, pois  achava que a margem de erro era mais excitante do que seguir passo a passo uma receita pré-estabelecida. Mas já está na hora de aprender com alguns erros, e este - a predisposição do desacerto - terá de ser suprimida na medida do possível. 
Vou encarar alguns medos ancestrais. O primeiro - vou aprender a nadar. Ainda não sei nadar absolutamente nada, e tenho a companhia de minha querida amiga e comadre A., que está me incentivando a fazer isto junto com ela, que tem o mesmo "déficit". O receio de parecer ridículo, agarrado a uma pranchinha e sendo amparado por um professor da metade de minha idade (ou menos...)pelo menos será compartilhado - ou seja, vexame a dois é meio vexame.
Hoje soube que meu afilhado de quase cinco anos deu uma bronca severa no cachorro que comeu seu dinossauro, com momentos cômicos da melhor qualidade. Não quero mais perder muitos momentos como este.
Vou tentar tirar algumas pequenas férias sem nenhum motivo profissional, desinteressadas - faz muito muito muito tempo que isto não ocorre. 
Vou tentar beber menos. Não deve doer tanto.
Cuidar um pouquinho do corpo está na lista de ações - saúde principalmente, sou completamente desencanado (leia-se irresponsável) com isso.
Ler mais. Tenho um medo absoluto da perda da memória, e acredito piamente que ler - além de prazeiroso, diminui as chances disto acontecer.
Voltar a tocar piano está nos planos. Tocava muito bem quando  garoto, depois Eduardo me presenteou com um piano de um quarto de cauda, mas eu travei - achei que estava duro, junto à lembrança que tinha de mim mesmo. Como não pretendo dar recitais mundo afora, vou aceitar esta falta de prática como um "work in progress" eterno.
Boulangerie e patisserie estão anotados no caderninho.
Já falei beber menos?
Tirar a palavra procrastinar de meu dicionário. Ou pelo menos fazer uso comedido deste verbo.
Guardar dinheiro - deve ter um jeito de eu fazer isto. Preciso encontrar este gene no meu DNA. Não de forma avara, mas como medida profilática para o futuro. 
E no final da vida, poder cantar ao piano
"I´ve planned each charted course
Each careful step along the byway...
...The record shows, I took the blows
And did it my way."