food, art & spirits

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

as batatas


Fui almoçar num restaurante perto de minha loja, aqui em Recife. (Para quem não sabe, fico na ponte-aérea Recife-São Paulo - na primeira, sou franqueado da Artefacto, na segunda sou o dono junto com meu companheiro do GabineteD). O proprietário deste restaurante gastou dinheiro para construir um espaço insípido, mal distribuído e de aparência estranha, parece que não está pronto. Talvez não esteja, mas como já abriu faz tempo e não vejo sinais de mudança, deduzo que está pronto mesmo.
Mas vamos aos fatos - fui almoçar lá porque tem guardanapos de tecido, um bom ar condicionado, serviço bastante razoável e comida idem, em serviço de buffet de saladas + pratos quentes e carnes servidas à mesa, como rodízio.
Fui à mesa de saladas, e peguei algumas coisas aleatórias - um pouco de salada de batatas com ovos, uma espécie de rocambole de batatas com atum e outras coisas, uma pequena montanha de chips de batata-doce, e um "salpicão de acelga" (assim estava escrito) com ...batatas.
Quando chego à minha mesa, olho minha dieta monotemática. Batatas em suas mais diversas opções. Sim, eu adoro tubérculos, e qualquer dieta que tire este elemento de meu cardápio me deixa um pouco tenso, mas aquilo era um exagero. Estava matutando sobre isto, quando antes de qualquer carne, passa uma gentil atendente me oferecendo batatas fritas. Ri sozinho, seria uma confluência astral estranha? Algum planeta que rege as batatas estava em alguma posição dominante? 
Antes que chegassem os filezinhos de picanha com aquela linha de gordura em cima, ou o malfadado cupim (que adoro) me ofereceram purê. Eu comecei  a achar que é uma pegadinha...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

quem é você no google?


Muito tempo atrás, escuto a seguinte conversa:
"- Aí o gatinho cheio de manha, chegou, blablabla, ofereceu uma bebida para a gente, e não desgrudava, e não parava de falar que era empresário, que tinha tal coisa, que tinha sei lá o quê, aí eu me enchi e perguntei - rapaz, quem é você no Google?"
Não ouvi mais nada depois disto. Achei esta questão ótima - quem é você no Google? Tem uma menção, tem páginas, ou sequer é citado no maior site de busca da contemporaneidade?
Passa a régua. Voltamos ao tema mais tarde.
...

Estava pesquisando a blogsfera - ou a foodsfera, o universo imenso dos blogs e sites que atendem ao universo culinário. E me deparei com um blog bem montado, de nome simpático, mas cuja primeira receita já me deixou irritado - Dip de Cebola. Descrição da receita:

- um pacote de sopa de cebolas marca X
- uma xícara de maionese marca Y
- um pacote de torradinhas marca Z
- um galhinho de cheiro verde
Modo de fazer: Misture a sopa de cebolas com a maionese, coloque num potinho bem bonito, enfeite com o galhinho de cheiro verde. Se quiser, pode salpicar uma pimenta do reino moída em cima, para dar um "efeito" (as aspas são minhas). Sirva com as torradinhas ao lado, sucesso na certa! 

Meu Santo Escofier, o que é isso, pensei. Como é que alguém se dá ao trabalho de dar uma receita ridícula destas, usando apenas produtos prontos, faz uma foto muito da safada com o dip num potinho ordinário, com o pacote de torradinhas ao fundo (ps- a foto deste post não é a do blog, foi retirada da internet, ok?)- tentativa de merchandising, talvez - e acha que está bom? Que excesso de tempo teriam estas blogueiras (eram duas...) que permitiam que elas postassem com um certo cuidado esta bobagem?  Ou quantidade de auto-estima permitia que elas cometessem este desatino?

Até que...(sempre tem um porém, um mas, um até que...)eu me dei ao trabalho de ver os comentários - 11, para ser mais exato. E fiquei boquiaberto: todos elogiosos, achando super criativo, prático, etc.etc.etc...
Eu ia deixar um recado desaforado - ando com algum "encosto" mau humorado ultimamente, e por mais que eu cante, ele não sobe! - até que me lembrei da frase ouvida há muito : "(Wair)Quem é você no Google?"
Caiu a ficha. Pretensioso eu, justo eu que combato qualquer forma de preconceito, que me policio nos meus textos para não parecer crítico em excesso (telhado de vidro mode on), que me incomodo com o excesso de tecnicismo aplicado em algumas receitas como se todos tivessem obrigação de conhecer os conceitos de cozimento à baixa temperatura ou esferificação. Quem sou eu no Google? Alguns verbetes,citações, mas se comparado a José Mindlin (ídolo), Neide Rigo ou Nina Horta, sou uma citaçãozinha de rodapé das últimas páginas. E eu outro dia dei uma receita de Suco de Tomate à minha maneira, como se isto não fosse a mais prosaica das mais prosaicas das receitas. Ou seja - como posso criticar alguém desta forma, visto a crítica neste caso ser provocada por uma pretensiosa sensação de superioridade.
Isto posto, faço aqui meu mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Não vou me transformar em bonzinho porque é tarde demais - já tenho cinquenta e pouquíssimos, e uma certa Síndrome de Gabriela (eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim, é assim que eu sou...) me impede de mudar a esta altura dos acontecimentos. Mas que mesmo assim, que ainda acho a receita safadinha, ah, acho...(SOBE ENCOSTO!!)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

brutalidades #2


Na mesa ao lado, no restaurante, o jovem tem uma postura peculiar em relação ao seu prato. Seu braço esquerdo está inteiramente sobre a mesa, protegendo o prato, e sua mão empunha (não segura não - empunha mesmo!) a faca pronto para defender aquele território de uma invasão bárbara - parecia que algum comensal vizinho ia pegar uma batatinha frita do prato alheio. Com a mão direita, ele leva avidamente a comida à boca, como se o imenso filé a parmegiana tivesse planejado com a montanha de batatinhas fritas "...-distraiam ele que eu saio correndo pela esquerda. Quando ele for olhar o que aconteceu, vocês fogem pela direita. E o arroz que se dane, são desunidos mesmo!"...
O celular do rapaz era de última geração - aliás, dava a impressão de que ainda seria lançado, tão novo e brilhante que era. Mas seus modos eram pré-históricos, de um tempo em que se caçava o almoço - ou se tornava o almoço de algum predador mais forte. 
...
Eu havia pedido um prosaico file de peixe com molho de camarões. E quando chegou, eu não podia cobrar uma correção da descrição do prato, pois era um filé de peixe com molho de camarões. Dois camarões, para ser mais exato. Chamei o garçon.
EU - Senhor, o prato que me trouxeram é fiel ao cardápio - filé de peixe com camarões. E tem um filé de peixe e dois camarões minúsculos aqui.
ELE -(garçon com cara de paisagem...)
EU - O Senhor percebe o conceito de minha reclamação?
ELE -(garçon com cara de paisagem...)
EU - Não acha enganoso oferecer molho de camarões e trazer DOIS camarões?
ELE- Ah, moço, está na moda estas porções bem pequenininhas...
EU- Meu senhor, a coisa pequena aqui é sua má vontade (e o cérebro, quase disse...) ao lado desta montanha de arroz, que eu pedi que não viesse por sinal.
ELE - Ah, então o senhor está no lucro! Pediu para não vir o arroz e veio...

Novamente os ímpetos homicidas...acho que vou fazer uma dieta longa e radical.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

brutalidades

Fiz um delicioso e forte aioli ontem, para comer com pão - estes dois para acompanhar um caldo de músculo fortíssimo que havia feito no domingo.(Teoricamente o músculo seria uma salada, mas cozinhei demais, então tivemos sopa ontem, e hoje salada de músculo - proteína mode on...)E fiquei pensando nas qualidades de uma culinária masculina, heavy metal. No potencial vigoroso de uma rabada com agrião, na substância de um prato de polenta com ragu - mas não de sua versão emasculada, apresentando uma colherada de polenta sobre um rabisco vermelho de ragu! Falo de um prato generoso, fundo, onde uma polenta amarelo forte recebe outra generosa porção de molho vermelho-escuro, mais um punhado de parmesão ralado ou - melhor ainda - de ricota defumada, acompanhando um bom vinho da região do Douro, de cor e sabor intensos. Dias antes havia comprado um bom pedaço de baby beef, que selei rapidamente numa panela muito quente com um fio de azeite, e depois de polvilhar sal e pimenta do reino, mandei ao forno por alguns minutos - e de lá saiu uma carne suculenta, cortada na tábua de madeira, escorrendo a  quantidade certa de sangue quando cortada. Junto uma salada de rúcula temperada com limão, azeite e sal, sobre a qual repousava um ovo quente, de onde escorreu de seu interior uma gema mole e quente de  forma lasciva, quase obscena. Um prato simples, rápido, sem frescuras, masculino em todos os sentidos. De repente percebi que minha culinária estava com excesso de testosterona - tudo que havia feito nos últimos dias tinha o componente da brutalidade - sangue, porções fartas, pimenta, calorias...
Tive uma recaída com a sobremesa, retirada do La Cucinetta, um site que sempre frequento. E a recaída veio em forma de conceito, produto e cor, como vocês podem confirmar na foto abaixo. E anda fiz uma versão "light" da receita original. Ou seja: recaí feio...


Receita?  Confiram AQUI



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

slow slow food

A mulher e o buffet


À minha frente, na fila do buffet, prato na mão esquerda, a mulher
- pega um ovo de codorna
- um tomate cereja
- mais um ovo de codorna
- um canapé de salmão
- uma fatia de carpaccio
- mais um canapé de salmão
- um mini-milho
Pensa...
- uma fatia de salmão defumado
- um blini
- um tiquinho de creme azedo
- mais um blini
- mais um tiquinho de creme azedo
- mais uma fatia de salmão defumado
Pensa...
- duas folhinhas de rúcula
- dois camarões cozidos
- mais uma folhinha de rúcula
- mais um tiquinho de creme azedo
- um tiquinho de molho rosé
- uma azeitona preta
- mais uma azeitona preta
- um aspargo
Pensa...olha para o prato...pensa novamente, olha para a mesa do buffet, olha para o prato, volta os olhos para a mesa do buffet, pensa...
- pega mais uma azeitona preta e vai embora. 17 minutos cravados para isto.
Tenho ímpetos homicidas.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

i´m hot

Não se assustem com a pretensão do título do post. Eu não quis dizer "eu sou", e sim "eu estou" - E NO SENTIDO FIGURADO, please!! É que estou numa fase apimentada. Colocando pimenta em tudo, sentindo um prazer em perceber a diferença dos sabores das pimentas, não apenas sua ardência, a surpresa. 
(na foto acima, a surpresa quase veio depois da terceira vodka - eu ia colocando a vodka na comida e engolindo a pimenta...)
Na verdade, a pimenta é a surpresa da comida. Se está muito salgado, você sente na hora - a mesma coisa o contrário. Mas a pimenta se apresenta timidamente, e depois pode ou mostrar a que veio de forma elegante porém definitiva, ou então arrebentar a boca do balão mesmo, irrompendo em ardidos e calores, provocando lágrimas. Eu fui aprendendo a gostar de pimenta aos poucos - ainda não sou completamente afeito às ardências (para mim exageradas) de alguns pratos mexicanos, bem como o Kimchi ainda me provoca reações adversas - quero provar, mas literalmente não aguento (além de achar meio feio). E eu não sou o único - machões empertigados podem se ver subitamente minimizados perante ao poder desta iguaria, como vocês podem ver abaixo com Wolverine himself,  Sr. Hugh Jackman (na ótima série The Kimchi Chronicles, de Jean Georges Vongerichten e sua esposa).


Mas estou levando a sério esta história de pimenta, começando a fazer as minhas próprias conservas, já plantei um pé de pimenta dedo-de-moça no jardim, estou revendo minhas relações com o chilli, comprei um pote generoso de gojuchang - a pasta coreana de pimenta vermelha, estou esperando chegar uma parente dela - toban djan, esta chinesa, e esta ardência já está pegando até nos meus sucos matinais, sob a forma de largos pedaços de gengibre batidos junto com frutas diversas. E eu desenvolvi minha própria receita de suco de tomate temperado, inspirado por minha comadre C. que adora este drink não alcóolico. Minha versão é domesticada na medida, mas os mais audazes podem caprichar nos temperos. E vou conseguir escapar ao lugar comum de "pimenta no dos outros é refresco", pois acho que pimenta é igual juízo - use na medida de sua vontade. E prazer, claro.


Suco de tomate temperado
1 colher de sobremesa de sal
1 pimenta dedo de moça 
1 dose de suco de tomate
suco de meio limão
várias gotas de tabasco
algumas gotas de molho inglês
peperoncini seco moído
uma pitada de sal Maldon

Macere a pimenta dedo de moça sem as sementes (para tirar um pouco da ardência) com o sal, reserve.
Misture todos os ingredientes numa coqueteleira com muitos cubos de gelo e mexa (Stirred, not shaken!) até gelar bastante o suco. Molhe a borda de um copo com um tiquinho de limão e passe no sal macerado. Coloque uma pedra  (ou duas, dependendo do tamanho do copo) de gelo  e derrame lentamente o suco coado, colocando um talo de aipo. Coragem, é muito bom.

sábado, 28 de dezembro de 2013

i can´t explain and i won´t even try

Final de ano, não consegui escapar ao clichê do que aconteceu em 2013. Particularmente, foi um ano complicado - abertura de empresa nova, inúmeras viagens a Recife a trabalho, dinheiro mais curto do que eu esperava a esta altura...mas em compensação as possibilidades são interessantes. Caminhamos - eu e Eduardo - para um 2014 com muito trabalho (what´s new?), mas perspectivas de crescimento muito objetivas. Porém, não quero fazer uma retrospectiva 2013 desta pessoa (mesmo porque tenho os já mencionados sérios problemas de memória), e sim citar coisas que me marcaram de uma forma ou de outra. Na música, por exemplo. Descobri Aloe Blacc, insuportavelmente elegante e dono de uma voz potente e impecável.
Estranhamente, eu que sempre fui ligado às vozes femininas, este ano me vi ouvindo os cantores em uma proporção muito maior do que habitual. É que não consigo resistir ao ritmo de José James
assim como não deixo de me impressionar com a estranheza da voz e da divisão silábica de Maverick Sabre

ou com a intensidade dramática de Roberto Fonseca, ou tantos outros novos que descobri através de canais no Youtube como Mahogany Sessions e One Take One Pic, ótimos.
E mais uma penca de artistas que povoaram meu set list este ano, junto com os de sempre - Brad Mehldau, Radiohead, Elis Regina, Billie Holiday, Nina Simone, Aarvo Part y outros. No cinema, poucas coisas me marcaram além de Blue Jasmine (um dos mais tristes filmes de Woody Allen), o violento Os Suspeitos, o tristíssimo Amour e last but not least Gravidade - este último por causa de sua beleza, apesar do fim forçado. (Tenho que fazer um adendo neste assunto - já tentei ver 3 vezes o Som ao Redor, mas acho muito chato e absolutamente supervalorizado.) Na literatura, continuo lendo A Vida dos Artistas de Vassari - dificílimo, mas definitivo a respeito -, pirei em O Poder da Arte (de Simon Chama) por seu didatismo claro e revelador, adorei Um Olhar Sobre Giacometti de David Silvester, penei nas inúmeras páginas do grande Fausto de Thomas Mann,e li com carinho Diário da Corte de Paulo Francis, entre inúmeros que li ou reli este ano (cumprindo uma das resoluções do final de 2012). A cada dia mais me interesso por fotografia, e neste campo tive a sorte de neste ano conhecer três grandes artistas - Ricardo Labastier, Fábio Stachi e Leonardo Ramadinha (na sequência abaixo) 


entre outros grandes que já mostraram seu trabalho em minha galeria - e me apaixonei pela obra de Estevan Oriol e Jocelyn Bain Hogg, que retratam em seus trabalhos uma realidade que me é completamente estranha - e, talvez por isso, fascinante.


Na gastronomia, foi um ano em que cozinhei feito louco, constantemente - talvez pelo fato de que quando viajava ficava à mercê de restaurantes e pratos rápidos, quando em casa me esmerei em receitas clássicas ou complexas, enveredando pelos doces e bolos, seara que me era um pouco desconhecida. Meus highlights foram o bolo de peras, a cocada de forno ,a panna cota de coco e o prosaico biscoitinho de limão que fiz com meu afilhado Raphael, a pedido dele (claro que o fator emocional desta receita pesa muito mais do que o resultado em si...).
Em suma - nada de novo nem de especial, a não ser os três quilos extras que se incorporaram em meu corpo e não desapegam de nenhuma maneira - já tentei regime, pílulas, massagens e agora estou pensando num despacho. Quem sabe inicio o próximo ano mais leve - em todos os sentidos?
Abraços a todos, até 2014. Voltaremos com novidades.
W










quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Indulgências, indulgências...


Tenho certas características muito particulares. Quando estou nervoso, arrumo coisas - tentativa física de "arrumar" a cabeça, desviada para ações prosaicas como organizar gavetas e armários, engraxar sapatos, etc. Quando não estou muito bem, saio de casa arrumadíssimo. Capricho no visual para balancear o interno, como se este equilíbrio resolvesse. E quando estou meio perdido, paro para retomar o ritmo, quase um "reboot" no HD particular, pois assim consigo retomar ações de forma mais próximo à lógica.

Hoje estava assim, muita coisa para resolver e eu abobalhado. Tentei resolver um assunto, tentei resolver o segundo (este com sucesso) , o terceiro e o quarto embolaram.
Saí. Estava precisando de algo muito bom e calmo e de qualidade para me colocar nos trilhos novamente. Um encontro com George Clooney estava fora de cogitação, bem como aconselhamentos e meditação com a Monja Cohen. Resolvi me acariciar com um almoço calmo e correto, e corri para o Clos de Tapas, cujo almoço tem uma ótima relação preço x qualidade. E a simples lembrança da manteiga com raspas de limão e sal já aguçava minha gula.
O cardápio oferecia 3 opções de entrada, três de prato principal e também de sobremesa, com versões que atendiam do paladar mais light ao heavy - o meu,  no caso.
Não recusei o couvert - pão, a tal manteiga, maionese com ervas - ficaria horas comendo isso...

De entrada, ovo cozido à baixa temperatura com polenta e bacon. Perfeito, apesar de eu gostar de polenta mais mole. Mas o ovo estava impecável - e o bacon saborosíssimo, não sei se foi feito na casa ou é de alguma marca padrão, mas o sabor casou soberanamente com os outros elementos do prato.

O prato principal - porco preto com abacaxi e risotto. O porco foi executado à perfeição, macio mas não se desmanchando, rosado, o molho com acentos de gengibre e cítricos,  abacaxi caramelizado no ponto exato e o risotto cumprindo sua função de acompanhamento, sem ousadias. 

A sobremesa  - bolo morno de maçã - era linda, e muito gostosa - mas talvez tenha eu pecado nesta opção, pois apesar de muito bem executada, era mais adequada como acompanhamento de um chá ou uma caneca de café forte a ser servido no meio da tarde ou a noite em frente à TV. Vou tentar fazer desta forma qualquer dia, quase um bolo de caneca top vip plus.

Ovo-porco-bolo. Minha opção do cardápio foi quase um poema concreto...
Augusto de Campos

A propósito - a tarde foi bastante produtiva depois deste almoço. Percebi que preciso de mais indulgências do que achava.




Clos de Tapas
- atendimento - perfeito, atencioso e formal na medida. E atento, checando subtilmente quem foi atendido ou não, detalhe precioso.
- decoração - sempre achei estranha - não é feia, mas também não é bonita. Mas com poucos recursos ficaria lindo. E o ar condicionado não estava 100% no dia.
- comida - ótima.
- preço - honesto, considerando- se a qualidade. R$ 45,00 mais a bebida e o serviço.
- bola dentro - o cardápio de almoço, enxuto e preciso.
- bola fora - guardanapos de papel...não justifica. E o ar condicionado.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

wrapped

Tenho um confesso problema com algumas embalagens. Eu adorava o bombom Sonho de Valsa, mas depois que mudaram a embalagem para uma coisa inviolável, reduzi muito o consumo desta caloria. Algumas latas de conservas - tipo tomate pelado - também foram desenhadas especificamente para cortar o dedo de quem se aventura a abri-las. E sempre tem aquele pote de geleia ou de mostarda que só abre com a ajuda de um halterofilista ou lutador de MMA.
Mas atualmente me irrito é com o excesso de embalagens ou etiquetas. Comprei um quilo de ameixas vermelhas ontem, e todas - sem excessão - vieram com uma etiqueta de código, sendo que algumas tinha duas etiquetas : uma do produtor, outra do tal código. E tirar etiquetas da pele da ameixa sem machucá-la é obra para pacientes...Ontem fui à padaria ao lado de minha Galeria, no meio da tarde, morto de fome - não havia almoçado, e foi a opção mais rápida. Pedi um pedaço de torta de frango e um suco. Chegou o prato com a torta, um envelope com a faca e o garfo, dois envelopes com guardanapos e o canudinho dentro de uma embalagem plástica. Coincidentemente, hoje não consegui sair para almoçar e pedi um prato simples e correto do América, cujo grande problema é a demora na entrega - mas a qualidade quase sempre compensa. Este prato (Texas) é composto de um hambúrguer, relish de pepino e de milho, cebolas empanadas e batatas fritas. Embalagem:
1 sacola de papel
1 saco grande de papel
1 saco plástico contendo dois potinhos plásticos de relish
1 saco plástico contendo os talheres descartáveis
1 saco plástico contendo o copo de refrigerante
1 canudinho embalado
2 embalagens contendo guardanapo
1 caixa de papelão com as batatinhas
1 caixa de papelão com as cebolas
1 caixa de papelão com o hamburguer
Ou seja - descartei 11 embalagens para comer um hamburger e uma coca-diet...
Neste excesso de cuidado com a higiene, será que não estamos exagerando nas embalagens descartadas quase sempre de forma aleatória? E quanto do custo deste excesso não é repassado para o preço final? Entendo que para uma entrega, todo cuidado é pouco - mas no balcão de uma padaria ou de um restaurante popular? Implico solenemente com os canudos embalados um a um. Até palito de dentes (que não sei porque ainda existe...)estão servindo em embalagens individuais atualmente. Comprei uma caixa de aveia recentemente, e ao abri-la surpresa: ela estava dividid em porções, cada uma delas embaladas em um saquinho de alumínio inviolável. Eu sei o tamanho de minha porção, não preciso de ninguém para me orientar nisto. Será implicância minha, estou ficando velho ou ninguém percebeu isto? A ilha de lixo composta por uma camada de 1 quilometro de extensão, no Pacífico, me incomoda demais para pensar que estou ficando paranóico...

Embalagem por embalagem, prefiro o escultor Christo, que em seus projetos já embalou a Pont Neuf, o Reichstag e outras situações de inconteste e perturbadora beleza. Eu tenho um livro dele com um pedaço do tecido com que ele embalou o edifício alemão, que, parafraseando aquele ministro cretino do passado, é um livro imexível, invendável e imprestável (quer dizer que não empresto...). 



Eu sou dado a um boicote - não abasteço meu carro nos postos da Petrobras desde a morte de Paulo Francis, que implicava categoricamente com esta estatal - chamava-a de Petrossauro - e que recebeu inúmeros processos desta empresa. Estou seriamente tentado a evitar locais com excesso de embalagem. Aguardem posts no futuro a este respeito. Isto se eu não for embalado e jogado na tal ilha pelo cartel das embalagens...Síndrome persecutória é sinal de paranóia?

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

o erro

" Os homens erram, os grandes homens confessam que erram."
Frase atribuída a Voltaire, serve como justificativa para este post. Domingo eu estava em casa, cachorros à minha volta, o bambu do post anterior cada dia maior,
caipirinha de maracujá pronta e eu começando a preparar as bases de um jantar na casa de comadre na quarta feira - depois mostro tudo pronto. E também estava querendo me aventurar em novas praias gastronômicas, fazendo coisas que nunca havia feito. Se fosse algo que eu pudesse almoçar, melhor ainda - apesar de estar sozinho este final de semana, eu me trato bem mesmo assim. Som no último volume, a voz e ritmo fantásticos de José James
e eu pesquisando o que ia fazer. De repente, um estalo - lembrei de uns bolinhos de batata recheados de carne que comia há muito no Rio de Janeiro, num lugar no Fashion Mall que não existe mais. Eram perfeitos, bem temperados, sequinhos, e de um tamanho tão delicado que nos forçava a comer dois, três...as vezes quatro...claro que me arrependo até hoje (só que não!) destes abusos. Mas a lembrança daquele bolinho me despertou a vontade de repetir esta receita - e fui à cata de uma que eu achasse próxima à lembrança do gosto (este é um tema que adoro - a lembrança do gosto, tão vago...). Por força de não ferir suscetibilidades, não vou indicar qual foi o site que me forneceu a base para uma tarde tumultuada. 
Primeiro - a quantidade de farinha para a massa era indicada pela expressão "adicione farinha à massa até ela não grudar mais nas suas mãos"...eu já fiquei tenso, pensando num bolinho com gosto de farinha. Portanto, fui adicionando farinha de trigo com muita parcimônia à mistura de batata cozida amassada, parmesão, ovo, sal e pimenta. Quando achei que estava bom, parei - mas a massa continuava grudando nas minhas mãos. Até aí, tudo bem - untei-as com azeite, e fui tentar moldar os bolinhos. Segundo - modelar no tamanho exato, com a palma das mãos untadas, muito fácil. Só que eu não consegui...
Explico - por mais que eu tentasse, ele não ficava pequeno. Nem médio. Na verdade, o primeiro ficou obsceno de tão grande. Eu queria fazer um para fritar e testar o gosto do conjunto, então foi esse mesmo. Passar no ovo batido e na farinha de rosca sem furar a massa ou desmantelar a forma foi um exercício hercúleo - e eu me odiando por insistir, mas fui até o final. Fritei o primeiro bolinho, e o gosto estava muito bom, crocante por fora, massa macia, recheio bem temperado - mas era quase uma refeição, de tão grande. Tentei fazer um menor, mas ficou sem graça - o recheio era tão pouco que não justificou. Não consegui chegar numa equação tamanho perfeito versus mordida perfeita. Um ficou redondo, outro ficou no formato de um quibe frito, outro abriu na panela e sujou todo o óleo, em suma - não deu certo. O gosto ficou bom, nada excepcional, mas a forma não ajudou ao conteúdo. Me recuso a postar a foto do resultado final, pois apesar de assumir o erro, não faço questão de mostrá-lo. 
Portanto, quem souber fazer bolinhos recheados de tamanho decente e sabor pungente, por favor, me avise e me chame para ver. Porque eu ainda insisti em fazer mais alguns na segunda feira à noite, pegando outra receita, e também não deu certo. Como sou teimoso estóico, acho que um dia consigo. Isto se minha fiel escudeira Rosilda não me proibir de repetir esta experiência - as marcas na cozinha foram quase indeléveis...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

miojo de luxe

Minha falta de preconceitos no campo gastronômico já me proporcionou
1)excesso de peso
2)perda de roupas
3)gastrite
4)y otras cositas más.
Quando viajava pela empresa em que trabalhei no passado, sempre sozinho, me aventurava por pratos e iguarias que desconhecia por completo - e se me dei mal em algumas vezes, na maior parte fui muito bem agraciado com sabores e temperos inesquecíveis. E tento trazer esta falta de preconceitos para todos os campos de minha vida, pois acredito piamente em conhecer o assunto ou objeto ou caso em questão antes de emitir um parecer desconexo ou - preconceituoso. E de repente me vi olhando com maus olhos um livro que tratava o Miojo (sim, aquele macarrão instantâneo típico de casa de estudante ou de quem vai morar fora e não sabe nem fritar ovo) como matéria prima para pratos mais sofisticados. 


Apesar dos chefes envolvidos neste projeto (de caráter comercial mas também comemorativo), sob o meu ponto de vista era como compor uma parede cheia de bons quadros com um Romero Britto no meio - a falta de qualidade (absoluta no caso do artista citado) de um dos elementos poderia desandar todo o conjunto, fazendo com que ingredientes bons fossem desperdiçados. Mas eu lembrei de uma salada deliciosa que a Rosa, do Z Deli serve em seu delicioso restaurante, que contém a massa inventada pelo Sr. Momofuku Ando no princípio do Século XX, e resolvi me arriscar. Estava sozinho em casa, querendo comer algo saboroso e leve, e fui inventando. E não é que deu MUITO certo? Rápido, com elementos picantes, ácidos, um pouco de "crocância", fui misturando tudo acompanhado de um vinho rosé bastante honesto, do qual não me lembro. A salada definitivamente entrou no cardápio de casa, e já penso em variantes com gravlax, ovas de salmão, pepino com iogurte e endro...Portanto, Miojo dá caldo - em todos os sentidos. 
Observação - este absolutamente não é um post pago ou publicitário, adoraria que o fosse!


Salada Momofuku
(eu inventei a salada, coloco o nome que quiser...)
1/4 de pacote de Miojo (individual mesmo)
1/2 pimenta dedo de moça
um punhado pequeno de uvas passas brancas sem caroço
1/2 xícara de acelga picada
1/2 xícara de repolho roxo picado 
1/3 pimentão amarelo em tirinhas
6 azeitonas verdes sem caroço
2 colheres de amêndoas em lascas
raspas de meio limão
azeite a gosto
sal a gosto

Quebre com as mãos o Miojo em pedaços. Reserve.Ferva uma xícara de água, coloque uma colher de sopa de sal, coloque o Miojo, cozinhe por três minutos, escorra e reserve. Misture os vegetais com a uva passa, as azeitonas picadas, as amêndoas e a pimenta dedo-de-moça em tirinhas. Verifique se a massa já está fria - se necessário, jogue-a rapidamente num bowl com gelo para interromper seu cozimento excessivo. Incorpore o macarrão à mistura, tempere com o azeite, as raspas de limão e o sal.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

a polenta de calder


Calder é uma de minhas maiores paixões. Faria coisas obscenas para ter uma obra dele, mas infelizmente a menos que eu ganhe sozinho na mega-sena, as chances disto acontecer são mais remotas do que os réus do Mensalão sofrerem as penas que nós, mortais, sofreríamos. Mas voltando ao alto nível - sob meu ponto de vista,Alexander Calder é um dos artistas mais originais e completos da arte do século passado, e seu legado ainda vai perdurar ao longo de toda história (ao contrário de minha opinião sobre Damien Hirst - a.k.a. "tubarão cortado ao meio decompondo-se em tanque de formol" e Beatriz Milhazes - mas isto será um outro post). 
Tenho vários livros sobre este incomensurável artista, mas um me é particularmente especial : Simplicity of Means, Calder and The Devised Object. Mostra os objetos para uso cotidiano que Calder fez para sua casa - colheres, candeeiros, peneiras - fazendo uso de arames, latas, tampinhas de metal e outros materiais para lá de prosaicos. Em alguns momentos, lembram o utilitário feito por populações carentes do interior brasileiro - peças igualmente dotadas de sensibilidade e genialidade - mas em sua maioria demonstram uma maestria no olhar que traduzem de imediato o repertório do autor. 



Este livro fica eternamente exposto ao lado de minha poltrona de leitura, para me lembrar que a criatividade e a genialidade não dependem exclusivamente de recursos caros ou sofisticados. Sim, tartufo é ótimo e é caríssimo, mas não é fundamental. Com recursos limitados, pode-se fazer um prato ótimo, reconfortante e bastante sofisticado, como a "minha" polenta. Que eu garanto - não dá muito trabalho (exceto ficar suando 25 minutos mexendo uma panela borbulhante) e é de comer rezando. Claro que eu preferia servi-la num bowl ou numa colher feita ou desenhada por Alexander Calder, mas...não peçamos a lua, se já temos as estrelas, não é?

Polenta da minha casa
1/2 litro de caldo de frango
1/2 litro de água
250 gramas de farinha de milho para polenta ou fubá (eu uso Moretti, ótima)
2 colheres de manteiga
2 colheres de azeite virgem
pimenta do reino moída
100 gramas de parmesão ralado
Aqueça a água até ferver. Abaixe o fogo. Lentamente, vá derrubando a farinha de milho, mexendo constantemente. Vai demorar uns 15 minutos até ela incorporar - de início parece que ela está "separada" do caldo, mas com o calor e com o temo ela vai engrossando. Quando começar a engrossar - nesta hora ela explode em boorbulhas como pequenos vulcões - adoro esta parte - abaixe o fogo para mínimo e continue mexendo sempre no mesmo sentido. Acrescente o azeite, a manteiga o parmesão e a pimenta do reino. Corrija o sal se necessário. Neste dia, eu servi com um ovo quente por cima e umas lasquinhas de grana-padano. E as pessoas adoraram. Estou pensando em servir no futuro com ora-pro-nobis, a delícia mineira, mas já servi com agrião precoce e ficou WOW!

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

o inesperado

Uma das obras que mais admiro de Matisse, um artista pelo qual sou apaixonado (junto aos estudos e recortes dos vitrais que estão na National Gallery) chama-se The Swimming Pool. 
Uma colagem em papel kraft, papel recortado e gouache, que ele fez para a própria casa. Me imagino falando com ele, dizendo ser esta a minha obra preferida deste imenso artista, e ele retrucando - "pintei quadros magníficos, transformei o cenário da pintura, retratei meu atelier com detalhes e você gosta de um quadro que só tem uma cor e é de papel recortado?" 
Senti isto na pele outro dia, em casa. A pessoa que vos escreve se esforça, capricha, coloca toda energia para fazer um prato principal - um pernil quase pterodáctilo de tão grande, que ficou doze horas marinando, sete horas assando em forno médio, continuamente regado, provocando queimaduras na mão direita, suou frente ao forno durante horas, e é elogiada de forma quase burocrática. Mas neste ínterim decidiu de última hora fazer um prato vegetariano para um dos convidados, e as pessoas entoam um "OOOHHHH!" de maravilhados. Fiz um quibe de abóbora, prosaico, mas acho que foi feito com cuidado especial, em virtude de ser oferecido a um grande amigo, outro imenso artista plástico e de paladar bastante apurado. Do pernil pré-histórico ainda resta um pacote dele desfiado, no freezer, aguardando nova transformação (vi uma torta de pernil hoje no Instagram, que me animou bastante - e amanhã é feriado, será que encaro isto ou vou passar o dia fazendo nada à beira da piscina?).Mas do quibe - sobrou um tiquinho que comi no dia seguinte. E estava realmente...Wow!Uma receita prática, e deliciosa. Gosto não se discute mesmo...
Quibe de abóbora
800 gramas de abóbora
400 gramas de trigo para quibe
1 cebola cortada em cubinhos
1 alho poró cortado em fatias finas
um maço de hortelã
1 xícara de nozes picadas
1/2 xícara de amêndoas em lâminas
400 gramas de queijo de cabra
azeite
sal
pimenta do reino
Faça uma infusão com 5 / 6 galhos de hortelã e um litro de água, espere esfriar e coloque o trigo para demolhar. Aguarde meia hora, coa e esprema até sair toda a água.
Asse a abóbora picada em pedaços médios embalada em papel alumínio, a 220° por 40 minutos. Tire da embalagem, amasse grosseiramente. Refogue a cebola em azeite até ficar transparente, adicione a abóbora, espere esfriar um pouco. Incorpore a abóbora amassada com o trigo já espremido, acrescente uma xícara de hortelã picada, sal e pimenta do reino. Reserve. Refogue o alho poró em azeite, adicione as amêndoas, reserve. Misture o queijo grosseiramente com as nozes, reserve.
Em uma forma refratária untada com azeite, coloque metade da mistura do quibe, cubra com o queijo com nozes, espalhe o alho poró com as amêndoas, e complete com o resto do quibe. Corte losangos ou retângulos sobre a superfície, passe um fio de azeite e leve ao forno a 240° por 20 minutos. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ícaro e o bambu

Pensava no mito de Ícaro e Dédalo enquanto observava em meu jardim um bambu que nascera espontaneamente e crescia de forma absolutamente vertiginosa e rápida. Dédalo e seu filho Ícaro foram encarcerados no labirinto do Minotauro; para sua fuga, Dédalo construiu asas feitas de cera do mel de abelhas e penas de gaivotas, alertando o filho de que caso se dirigisse muito para o alto, o calor do sol poderia derreter suas asas - e se se dirigisse ao mar, suas asas poderiam ficar mais pesadas. No entanto, Ícaro não ouviu os conselhos do pai e, tomado pelo desejo de voar em direção ao sol, acabou despencando do azul celeste em direção ao mar Egeu. Uma parábola sobre como a sede do conhecimento pode nos levar a caminhos - ou finais, no caso - inesperados. Serve também para ilustrar o eterno desejo da juventude de ignorar os conselhos familiares e trilhar sua própria história. Ou para mostrar que nossos desejos têm limites - e que, quando os ultrapassamos, estamos sujeitos a leis maiores. 
Mas voltando ao jardim de casa - um brotinho nascera ao lado do bambu que tenho ao lado esquerdo da porta do terraço. E - juro - em pouco mais de 10 dias, alcançava aproximadamente 2,5 metros. Enquanto escrevo isto, ele já está próximo aos 4 metros de altura, 15 dias depois de ter sido oficialmente notado, à época com 5?10 centímetros. Questionando um amigo paisagista, descobri que este é um "filhote" do bambu, e que não nasceria com o mesmo desenho do outro, torto e espalhado, mas provavelmente mais retilíneo e verticalizado. E que, caso eu não o cortasse bem cedo, provavelmente causaria a morte de seu "pai" - e isto era visível, pois enquanto ele cresce seu par parece definhar, com o tronco menos verde e perdendo as folhas, a despeito de meus esforços para mantê-lo vivo e saudável. Este bambu filhote procura os céus desesperadamente como Ícaro em sua fuga - esta era a ligação que eu fazia quando no jardim. 


O vinho branco estava perfeito - um Sauvignon Blanc chileno, o sol estava começando a dar sinais de ir embora prematuramente às quatro da tarde deste horário de verão, e eu a fazer relações entre o bambu patricida, Dédalo, Ícaro e todas as suas interpretações. 
Não cheguei a nenhuma conclusão, mas desci para a cozinha e fiz uma salada grega. Fácil, mediterrânea, fresca e rápida, ainda deu para ver o dia acabar, junto a mitos e um bambu que não para de crescer. 


Salada grega
1 pepino japonês com casca
2 tomates não muito maduros
1/4 de pimentão amarelo
1/4 de pimentão vermelho
1 cebola roda em fatias
10 azeitonas pretas
4 fatias de queijo feta
oregano fresco
sal / pimenta do reino
azeite 
suco de meio limão

misture o limão com azeite e oregano fresco. reserve. 
corte os tomates sem sementes, o pepino e os pimentões em pedaços parecidos. misture, adicione as cebolas, as azeitonas sem caroço (por favor...não vai ficar bem alguém quebrando um dente depois desta história toda de Grécia, mitologia, botânica, psicologia e por aí vai...) o queijo e a mistura de azeite. Mexa o suficiente para incorporar os elementos, coloque a pimenta do reino e sal a gosto.