food, art & spirits

food, art & spirits

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

miojo de luxe

Minha falta de preconceitos no campo gastronômico já me proporcionou
1)excesso de peso
2)perda de roupas
3)gastrite
4)y otras cositas más.
Quando viajava pela empresa em que trabalhei no passado, sempre sozinho, me aventurava por pratos e iguarias que desconhecia por completo - e se me dei mal em algumas vezes, na maior parte fui muito bem agraciado com sabores e temperos inesquecíveis. E tento trazer esta falta de preconceitos para todos os campos de minha vida, pois acredito piamente em conhecer o assunto ou objeto ou caso em questão antes de emitir um parecer desconexo ou - preconceituoso. E de repente me vi olhando com maus olhos um livro que tratava o Miojo (sim, aquele macarrão instantâneo típico de casa de estudante ou de quem vai morar fora e não sabe nem fritar ovo) como matéria prima para pratos mais sofisticados. 


Apesar dos chefes envolvidos neste projeto (de caráter comercial mas também comemorativo), sob o meu ponto de vista era como compor uma parede cheia de bons quadros com um Romero Britto no meio - a falta de qualidade (absoluta no caso do artista citado) de um dos elementos poderia desandar todo o conjunto, fazendo com que ingredientes bons fossem desperdiçados. Mas eu lembrei de uma salada deliciosa que a Rosa, do Z Deli serve em seu delicioso restaurante, que contém a massa inventada pelo Sr. Momofuku Ando no princípio do Século XX, e resolvi me arriscar. Estava sozinho em casa, querendo comer algo saboroso e leve, e fui inventando. E não é que deu MUITO certo? Rápido, com elementos picantes, ácidos, um pouco de "crocância", fui misturando tudo acompanhado de um vinho rosé bastante honesto, do qual não me lembro. A salada definitivamente entrou no cardápio de casa, e já penso em variantes com gravlax, ovas de salmão, pepino com iogurte e endro...Portanto, Miojo dá caldo - em todos os sentidos. 
Observação - este absolutamente não é um post pago ou publicitário, adoraria que o fosse!


Salada Momofuku
(eu inventei a salada, coloco o nome que quiser...)
1/4 de pacote de Miojo (individual mesmo)
1/2 pimenta dedo de moça
um punhado pequeno de uvas passas brancas sem caroço
1/2 xícara de acelga picada
1/2 xícara de repolho roxo picado 
1/3 pimentão amarelo em tirinhas
6 azeitonas verdes sem caroço
2 colheres de amêndoas em lascas
raspas de meio limão
azeite a gosto
sal a gosto

Quebre com as mãos o Miojo em pedaços. Reserve.Ferva uma xícara de água, coloque uma colher de sopa de sal, coloque o Miojo, cozinhe por três minutos, escorra e reserve. Misture os vegetais com a uva passa, as azeitonas picadas, as amêndoas e a pimenta dedo-de-moça em tirinhas. Verifique se a massa já está fria - se necessário, jogue-a rapidamente num bowl com gelo para interromper seu cozimento excessivo. Incorpore o macarrão à mistura, tempere com o azeite, as raspas de limão e o sal.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

a polenta de calder


Calder é uma de minhas maiores paixões. Faria coisas obscenas para ter uma obra dele, mas infelizmente a menos que eu ganhe sozinho na mega-sena, as chances disto acontecer são mais remotas do que os réus do Mensalão sofrerem as penas que nós, mortais, sofreríamos. Mas voltando ao alto nível - sob meu ponto de vista,Alexander Calder é um dos artistas mais originais e completos da arte do século passado, e seu legado ainda vai perdurar ao longo de toda história (ao contrário de minha opinião sobre Damien Hirst - a.k.a. "tubarão cortado ao meio decompondo-se em tanque de formol" e Beatriz Milhazes - mas isto será um outro post). 
Tenho vários livros sobre este incomensurável artista, mas um me é particularmente especial : Simplicity of Means, Calder and The Devised Object. Mostra os objetos para uso cotidiano que Calder fez para sua casa - colheres, candeeiros, peneiras - fazendo uso de arames, latas, tampinhas de metal e outros materiais para lá de prosaicos. Em alguns momentos, lembram o utilitário feito por populações carentes do interior brasileiro - peças igualmente dotadas de sensibilidade e genialidade - mas em sua maioria demonstram uma maestria no olhar que traduzem de imediato o repertório do autor. 



Este livro fica eternamente exposto ao lado de minha poltrona de leitura, para me lembrar que a criatividade e a genialidade não dependem exclusivamente de recursos caros ou sofisticados. Sim, tartufo é ótimo e é caríssimo, mas não é fundamental. Com recursos limitados, pode-se fazer um prato ótimo, reconfortante e bastante sofisticado, como a "minha" polenta. Que eu garanto - não dá muito trabalho (exceto ficar suando 25 minutos mexendo uma panela borbulhante) e é de comer rezando. Claro que eu preferia servi-la num bowl ou numa colher feita ou desenhada por Alexander Calder, mas...não peçamos a lua, se já temos as estrelas, não é?

Polenta da minha casa
1/2 litro de caldo de frango
1/2 litro de água
250 gramas de farinha de milho para polenta ou fubá (eu uso Moretti, ótima)
2 colheres de manteiga
2 colheres de azeite virgem
pimenta do reino moída
100 gramas de parmesão ralado
Aqueça a água até ferver. Abaixe o fogo. Lentamente, vá derrubando a farinha de milho, mexendo constantemente. Vai demorar uns 15 minutos até ela incorporar - de início parece que ela está "separada" do caldo, mas com o calor e com o temo ela vai engrossando. Quando começar a engrossar - nesta hora ela explode em boorbulhas como pequenos vulcões - adoro esta parte - abaixe o fogo para mínimo e continue mexendo sempre no mesmo sentido. Acrescente o azeite, a manteiga o parmesão e a pimenta do reino. Corrija o sal se necessário. Neste dia, eu servi com um ovo quente por cima e umas lasquinhas de grana-padano. E as pessoas adoraram. Estou pensando em servir no futuro com ora-pro-nobis, a delícia mineira, mas já servi com agrião precoce e ficou WOW!

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

o inesperado

Uma das obras que mais admiro de Matisse, um artista pelo qual sou apaixonado (junto aos estudos e recortes dos vitrais que estão na National Gallery) chama-se The Swimming Pool. 
Uma colagem em papel kraft, papel recortado e gouache, que ele fez para a própria casa. Me imagino falando com ele, dizendo ser esta a minha obra preferida deste imenso artista, e ele retrucando - "pintei quadros magníficos, transformei o cenário da pintura, retratei meu atelier com detalhes e você gosta de um quadro que só tem uma cor e é de papel recortado?" 
Senti isto na pele outro dia, em casa. A pessoa que vos escreve se esforça, capricha, coloca toda energia para fazer um prato principal - um pernil quase pterodáctilo de tão grande, que ficou doze horas marinando, sete horas assando em forno médio, continuamente regado, provocando queimaduras na mão direita, suou frente ao forno durante horas, e é elogiada de forma quase burocrática. Mas neste ínterim decidiu de última hora fazer um prato vegetariano para um dos convidados, e as pessoas entoam um "OOOHHHH!" de maravilhados. Fiz um quibe de abóbora, prosaico, mas acho que foi feito com cuidado especial, em virtude de ser oferecido a um grande amigo, outro imenso artista plástico e de paladar bastante apurado. Do pernil pré-histórico ainda resta um pacote dele desfiado, no freezer, aguardando nova transformação (vi uma torta de pernil hoje no Instagram, que me animou bastante - e amanhã é feriado, será que encaro isto ou vou passar o dia fazendo nada à beira da piscina?).Mas do quibe - sobrou um tiquinho que comi no dia seguinte. E estava realmente...Wow!Uma receita prática, e deliciosa. Gosto não se discute mesmo...
Quibe de abóbora
800 gramas de abóbora
400 gramas de trigo para quibe
1 cebola cortada em cubinhos
1 alho poró cortado em fatias finas
um maço de hortelã
1 xícara de nozes picadas
1/2 xícara de amêndoas em lâminas
400 gramas de queijo de cabra
azeite
sal
pimenta do reino
Faça uma infusão com 5 / 6 galhos de hortelã e um litro de água, espere esfriar e coloque o trigo para demolhar. Aguarde meia hora, coa e esprema até sair toda a água.
Asse a abóbora picada em pedaços médios embalada em papel alumínio, a 220° por 40 minutos. Tire da embalagem, amasse grosseiramente. Refogue a cebola em azeite até ficar transparente, adicione a abóbora, espere esfriar um pouco. Incorpore a abóbora amassada com o trigo já espremido, acrescente uma xícara de hortelã picada, sal e pimenta do reino. Reserve. Refogue o alho poró em azeite, adicione as amêndoas, reserve. Misture o queijo grosseiramente com as nozes, reserve.
Em uma forma refratária untada com azeite, coloque metade da mistura do quibe, cubra com o queijo com nozes, espalhe o alho poró com as amêndoas, e complete com o resto do quibe. Corte losangos ou retângulos sobre a superfície, passe um fio de azeite e leve ao forno a 240° por 20 minutos. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ícaro e o bambu

Pensava no mito de Ícaro e Dédalo enquanto observava em meu jardim um bambu que nascera espontaneamente e crescia de forma absolutamente vertiginosa e rápida. Dédalo e seu filho Ícaro foram encarcerados no labirinto do Minotauro; para sua fuga, Dédalo construiu asas feitas de cera do mel de abelhas e penas de gaivotas, alertando o filho de que caso se dirigisse muito para o alto, o calor do sol poderia derreter suas asas - e se se dirigisse ao mar, suas asas poderiam ficar mais pesadas. No entanto, Ícaro não ouviu os conselhos do pai e, tomado pelo desejo de voar em direção ao sol, acabou despencando do azul celeste em direção ao mar Egeu. Uma parábola sobre como a sede do conhecimento pode nos levar a caminhos - ou finais, no caso - inesperados. Serve também para ilustrar o eterno desejo da juventude de ignorar os conselhos familiares e trilhar sua própria história. Ou para mostrar que nossos desejos têm limites - e que, quando os ultrapassamos, estamos sujeitos a leis maiores. 
Mas voltando ao jardim de casa - um brotinho nascera ao lado do bambu que tenho ao lado esquerdo da porta do terraço. E - juro - em pouco mais de 10 dias, alcançava aproximadamente 2,5 metros. Enquanto escrevo isto, ele já está próximo aos 4 metros de altura, 15 dias depois de ter sido oficialmente notado, à época com 5?10 centímetros. Questionando um amigo paisagista, descobri que este é um "filhote" do bambu, e que não nasceria com o mesmo desenho do outro, torto e espalhado, mas provavelmente mais retilíneo e verticalizado. E que, caso eu não o cortasse bem cedo, provavelmente causaria a morte de seu "pai" - e isto era visível, pois enquanto ele cresce seu par parece definhar, com o tronco menos verde e perdendo as folhas, a despeito de meus esforços para mantê-lo vivo e saudável. Este bambu filhote procura os céus desesperadamente como Ícaro em sua fuga - esta era a ligação que eu fazia quando no jardim. 


O vinho branco estava perfeito - um Sauvignon Blanc chileno, o sol estava começando a dar sinais de ir embora prematuramente às quatro da tarde deste horário de verão, e eu a fazer relações entre o bambu patricida, Dédalo, Ícaro e todas as suas interpretações. 
Não cheguei a nenhuma conclusão, mas desci para a cozinha e fiz uma salada grega. Fácil, mediterrânea, fresca e rápida, ainda deu para ver o dia acabar, junto a mitos e um bambu que não para de crescer. 


Salada grega
1 pepino japonês com casca
2 tomates não muito maduros
1/4 de pimentão amarelo
1/4 de pimentão vermelho
1 cebola roda em fatias
10 azeitonas pretas
4 fatias de queijo feta
oregano fresco
sal / pimenta do reino
azeite 
suco de meio limão

misture o limão com azeite e oregano fresco. reserve. 
corte os tomates sem sementes, o pepino e os pimentões em pedaços parecidos. misture, adicione as cebolas, as azeitonas sem caroço (por favor...não vai ficar bem alguém quebrando um dente depois desta história toda de Grécia, mitologia, botânica, psicologia e por aí vai...) o queijo e a mistura de azeite. Mexa o suficiente para incorporar os elementos, coloque a pimenta do reino e sal a gosto. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

cenas de um exagero

Uns buscam a simplificação, a síntese, a redução. Roberta Sudbrack caminha por uma trilha de elegância e sabores, com pratos de poucos ingredientes executados com maestria. Um de meus restaurantes preferidos em São Paulo, o Arturito (da grande Paola Carosella) oferece em seus domínios uma cozinha de excelência - tudo perfeitamente cozido ou grelhado no ponto mais do que certo, porções de tamanho ideal, e sabores que explodem de simplicidade extraída da perfeição. Mas existe um outro lado, que ainda insiste na mistura de elementos para compor um prato, onde teoricamente não poderia faltar algo ácido, algo adocicado e algo crocante. Em primeiro lugar - quem foi que teceu esta máxima de que estes elementos são fundamentais para uma receita? E em segundo lugar - já perceberam nas nomenclaturas dos pratos oferecidos? E tome "confit de pato em sua própria gordura (existe outro meio?), deitado em berço de baby leaves com redução de porto, poeira de barriga de porco e pérolas de tapioca" - só de ler o título do prato já me deu sono. Fora que um prato com poeira e pérolas já me deixa tenso.
Mas recentemente, graças a um amigo, conheci o cardápio abaixo.
Primeiro, o capítulo "Gourmet". Esta "gourmetização" já está chegando às raias do exagero. Ainda me soa na lembrança o livro de Miojo Gourmet - nada contra o processo de "sofisticação" de um prato instantâneo, isto é puro exercício de gestão de marca - mas "gourmetizar" o Miojo é triste. Temos hamburguer gourmet, brigadeiro gourmet, pudim de leite gourmet, e - no caso acima - Pizzas Gourmet.
Segundo - imagine a gororoba. Uma pizza com 1001 notas de sabor! Queijos - sim, queijos, no plural -misturados ao molho de tomate, com linguiça, couscous marroquino com tâmaras e Chanchlich...Ou então, uma que, sob uma chuva de Ervas de Provence (adoro a imagem...) e traços de molho barbecue de goiaba (ou Bar-B-Que, como grafado -argh!!!!!!), o feliz comensal pode encontrar alho poró puxado no vinho branco, amêndoas laminadas, atum grelhado e queijo holandês. É literalmente um X-Tudo, e o atum não merecia este fim tão indigno.
Num boteco aqui em Recife, onde me encontro novamente, encontro "Peixe ao molho de al caparras (ai...), creme de leite e catchup gratinado com queijo manteiga". Droga, gourmetizaram o botequim também! 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

transtorno obsessivo culinário

Todo mundo pira um dia. Alguns bebem, outros saem xingando e batendo nas pessoas, outros saem comprando compulsivamente (já fiz isso no passado, hoje não mais - por falta de budget, e não de feelings). Eu arrumo coisas. Coloco os cintos todos com as fivelas do mesmo lado, separados por cor. O mesmo com as gravatas - que raramente uso, os lenços de bolso - que uso muito, os óculos, engraxo os sapatos, rearrumo as camisas, etc. Se a piração é heavy, esta ligeira loucura ultrapassa os limites do closet e vai para a estante, para a despensa, biblioteca, e saio uma mistura de Rose - a empregada Robot de The Jetsons e Sheldon Cooper, o maluco de The Bing Bang Theory.
Sábado passado foi "The Night". Eu estava tenso, enlouquecido, precisava fazer algo. Meu armário estava impecável. Os sapatos, brilhando. Os livros em ordem alfabética e tamanho. Eu tive que cair na cozinha...
Fiz caldo de músculo, e com este uma salada e uma sopa. Fiz um excepcional bolo de pêras - posto a receita qualquer dia. Fiz strogonoff, cozinhei lentilhas, gelatinas diversas, e enquanto rearrumava todos os armários da cozinha, mudando as panelas para outro armário, depois de dois Gin-Tônicas, algumas cervejas, três canecas imensas de café e dois vinhos do porto, vi um pacote de damascos e um de farinha de trigo abertos e pela metade, pedindo saída. E um resto congelado de peito de frango com molho de laranjas e gengibre de noites passadas atrapalhava a arrumação perfeita do freezer - eu tinha que dar um jeito naquilo. Descongelei o dito cujo, refoguei cebolas e pimentões amarelos, coloquei o frango em seu molho, acrescentei os damascos e engrossei o caldo com um tico de amido de milho. O Porto não tinha cortado o efeito da cafeína, então decidi fazer uma massa e transformar aquilo numa torta - aliás quatro, devidamente instaladas em ramequins. A cozinha mais parecia um laboratório de traficante colombiano - pó branco espalhado nas bancadas, canecas, copos, taças e garrafas vazias, e eu finalmente caí em mim. Eu parecia uma figura de Lucian Freud, abatido, exausto, quimicamente excitado às quase quatro da madrugada. Fui tomar um banho, abri o livro na cama e dormi na primeira página. 



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

trepa no coqueiro e tira o coco

Então sábado tive um jantar em casa, para 12 pessoas. Entre elas o designer Luis Pons, o arquiteto David Schwartz e uma artista plástica fantástica, inteligente de dar raiva, de nome Michele e Beto C., recente e já grande amigo. Eu havia ficado a noite anterior picando quilos e mais quilos de peito de frango, temperei com temperos marroquinos e depois de refogar ligeiramente, cozinhei-os numa calda de laranja e gengibre. Servi com couscous marroquino, e todos adoraram mesmo. Eu já havia preparado um pudim de damascos, mas 2 horas e meia antes do jantar, decidi fazer uma outra sobremesa. Queria algo com gosto brasileiro, já que o jantar tinha sabores e perfumes do Mediterrâneo. Encarei rapidamente uma panna cotta de coco - correção, o conceito por trás do prato era esta sobremesa típica do Piemonte, mas na realidade virou outra coisa, pois fui juntando aqui, juntando ali, mudando um pouquinho e consegui algo absolutamente ESPETACULAR, em todos os sentidos. Os convidados adoraram, e quando eu disse que havia feito naquele dia, um ligeiro OOOOOHHHH pode se ouvir em torno da mesa. Eu consegui fazer algo pouco calórico, saboroso, original e muito, muito leve. Michelle me disse que era uma das melhores sobremesas que tinha comido ever. Será por isso que a considerei extremamente inteligente?

                           
Quase uma Panna Cotta de Coco 
500 ml de creme de leite fresco
400 ml de iogurte desnatado
600 ml de leite de coco
1 colher de sopa de sementes de cardamomo
4 colheres de sopa de açúcar peneirado
2 pacotes de gelatina em pó sem sabor
200 gramas de coco ralado sem açúcar
1 clara de ovo batida em neve
Coloque o creme de leite para ferver junto com o cardamomo, abaixe o fogo e coloque o leite de coco, o coco ralado e o açúcar. Cozinhe por 7 minutos para o cardamomo soltar seu aroma e perfume. Retire estes do creme, tire a panela do fogo e transfira o líquido para um bowl grande. Espere esfriar um pouco (mas deixe ainda morno), acrescente o iogurte e mexa bem. Incorpore lentamente a clara em neve, e em seguida colocar a gelatina já hidratada e amolecida conforme as instruções do fabricante.
Colocar em forminhas individuais (ou taças ou até copos pequenos). Levar à geladeira por no mínimo 4 horas, aqui eu acelerei o processo pelo freezer. E eu servi com uma calda de banana-passa (que tinha no armário) com cachaça (que sempre tenho no armário) e um pé-de-moleque "gourmet"... 



ps - eu só consigo fazer esta receita agora para 12 pessoas, sorry...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Raphaelices e Gabrielices e...

Cena 1 - Gabriel (já citado aqui) vem à Galeria na sexta feira à tarde. Doce e animado como sempre, pergunta coisas sobre algumas obras, questiona outras, come uns biscoitinhos, joga charme sobre a gente e vai embora, levado pela mãe. À noite, comadre me liga com a novidade, descrevendo o papo entre eles muito tempo depois de que daqui saíram:
"-Mamãe, quando eu crescer quero ter uma galeria.
- Galeria de que, Gabriel?
- Galeria de Arte, mamãe!"
Cena 2 - No dia seguinte, sábado recebendo convidados para a exposição de obras de Luis Pons, grande designer Venezuelano, topo com Annita, uma menina de 7 anos super despachada e perspicaz. Sentamos na escada com sua mãe, e ela me diz que adora arte. Segue o papo
"- Annita, se você quiser trazer os amiguinhos da sua turma da escola até a Galeria para eles conhecerem, pode trazer ok?

- Posso? Então eu vou organizar isto! Mamãe, marque uma reunião para fazermos isto.
(...passado...)
- Mamãe, você vai me ajudar a organizar isto, tá?!
(...passado#2...)
Tiramos uma foto, e ela fez "a" pose.

Cena 3 - no final deste mesmo dia, recebo um telefonema:
"-Dindo, vamos fazer biscoito?
- Oi Raphael, tudo bom? Você quer fazer biscoitos?
- SIIIIIIM. Vamos fazer biscoito aqui em casa amanhã? Eu preciso comprar os "inguedientes"?
- Não Rapha, eu levo."
No domingo, fomos para a casa da comadre. Raphael e Thomas me recebem animados, "vamos fazer biscoito?!?!??!", almoçamos e o Raphael cobrando a promessa. Fomos para a cozinha, ele já de avental e lenço na cabeça. Botou a mão na massa, me ajudou a esticar e cortar os biscoitos, passou no açúcar e comeu vários, super feliz.

Mais feliz estava eu.

Biscoitos "Raphaelitas"
Confesso que eu nunca tinha feito biscoito na vida. Contava com a internet para na hora sacar uma receita do IPad, mas na hora "H" cadê a internet? O jeito foi improvisar.
1 e 1/2 xícaras de farinha de trigo
1/2 xícara de açúcar
50 gramas de manteiga
1 ovo
2 colheres de leite 
1 colher de café de bicarbonato
1 colher de sopa de raspas de limão siciliano
Calda
suco de 1 limão siciliano
4 colheres de açúcar
Misture a farinha, o açúcar, o bicarbonato e as raspas de limão. Acrescente a manteiga e incorpore até virar uma espécie de farofa. Acrescente o ovo e 1 colher de leite, incorpore até que a massa fique em ponto de esticar. Se precisar, coloque o resto do leite.
Descanse a massa por 30 minutos na geladeira (o que, no caso, não aconteceu. Meia hora para meu assistente era demais...). Abra com o rolo, corte com o molde desejado, coloque em forma ligeiramente untada no forno a 180 graus por 10 minutos. Vire os biscoitos, e deixe por mais 5 minutos.
Misture o suco de limão e o restante do açúcar, e leve ao fogo até virar uma calda fina. Molhe uma face do biscoito sobre a calda morna, polvilhe açúcar de confeiteiro sobre a superfície molhada e sirva.
(este post foi escrito sem nenhuma intenção ou influência do dia da criança. foram meras coincidências.)





sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Wolverine, um chefe e um porco

The Iconoclasts é um programa e tanto. Com o apoio da ótima Vodka Grey Goose, parte do princípio de explorar as relações entre duas pessoas de áreas distintas. Desta série ví ótimos programas, como Quentin Tarantino e Fiona Apple, Mikhail Naryshnikov e Alice Waters, Maya Angelou com alguém que não me lembro, e mais um grupo de cabeças pensantes.
E semana passada vi um especial em todos os sentidos - juntava um de meus chefs preferidos, Jean-Georges Vongerichten e o ator Hugh Jackman. Visualmente, já era um programa delicioso, dada a presença de um dos protagonistas. Mas a empatia entre estes dois profissionais demonstrada no decorrer da matéria proporcionou momentos de prazer em altíssimos níveis. A primeira vez que estive em um restaurante deste chef foi há muito tempo atrás, no VONG - que hoje não existe mais. Pena, pois era lindo, orquídeas gigantescas nas mesas, drinks fantásticos e uma comida picante e extremamente saborosa. No quesito picante, Jean-Georges sai com uma frase ótima: "Chile is my condiment of choice: A little here, a little there, makes the food sing".No caso do programa citado, cujo teaser você pode ver abaixo, o condimento mais apimentado era a presença de Wolverine servindo de garçom em um evento beneficente.

Mas, voltando à comida, Vongerichten é casado um uma bela mulher de origem asiática, e os sabores deste continente são bastante presentes em sua comida. 
É dele a melhor receita que tenho para porco, uma carne subestimada mas que os grandes chefs sabem valorizar. A mistura de presunto e abacaxi é clássica, já fez a fama do restaurante Cervantes no Rio de Janeiro. Fácil, saboroso e feito por um grande mestre. Infelizmente não temos Mr. Jackman para nos servir - ou sequer fazer companhia. Mas não peçamos a Lua, se já temos as estrelas...

  1. Sweet-and-sour pork 
  2. 2 colheres de sopa de sal marinho
  3. 1 colher de soa de páprica picante
  4. 1 colher de sopa de cebola em pó 
  5. 1 colher de sopa de alho em pó
  6. 1 quilo de costeletas de porco numa peça só
  7. 1/4 xícara de Sriracha (pode substituir por uma pimenta baiana bem forte)
  8. 1 abacaxí descascad, sem o miolo, cortado em cubos de 2 cm aproximadamente
  9. 1 xícara de açúcar mascavo
  10. 1 xícara de vinagre de cidra ou de maçã
  11. Em uma travessa, misturar o sal, a páprica, o alho e a cebola. Corte a peça de carne em 4 partes.Salpicar a mistura de especiarias sobre a carne, e cobrir com o molho de pimenta. Envolva todo o exterior da carne com esta mistura, e deixe marinando a temperatura ambiente por duas horas.Aqueça o forno a 280 graus. Numa forma de fundo grosso ou refratária, misture o abacaxi com o vinagre e o açúcar mascavo. Coloque os pedaços de costeleta por cima desta mistura, e leve ao forno por 4 horas , diminuindo a temperatura gradativamente a cada meia hora, chegando a aproximadamente 160 graus. Apague o forno e deixe a carne descansar por 20 minutos. Retire do forno, aqueça o abacaxi numa panela para reduzir ainda mais o caldo, e sirva sobre a carne. Não faz parte da receita, mas sirvo isto com um arroz basmati soltinho e farofa de vagens. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

eles não comem pastel

Escrevo este sob o impacto do espetáculo que vi ontem - Alvin Ailey American Dance. Já vi esta companhia várias vezes, mais do que posso me lembrar, menos do que gostaria. Considero o ballet contemporâneo (o clássico eu não tenho muita paciência, confesso) uma das expressões artísticas mais completas que conheço. Em se considerando a hipótese de uma máquina do tempo, iria direto para a década de 1920 Diaghilev & Les Ballets Russes, época em que Coco Chanel fazia os figurinos, Stravinsky a música, Jean Cocteau, Picasso e Matisse os cenários e Nijinski flutuava em cena - e por aí vai. (Também daria um pulo nas décadas de 1940/1950 para ver Billie Holiday ao vivo, mas isto é para outro post.)
Em New York, sou fã de carteirinha do Joyce Theater, e sempre que estou nesta cidade é uma de minhas primeiras paradas - sempre consigo ver bons ou excelentes espetáculos, e por preços as vezes irrisórios. Um país que tem sessões de ballet à tarde a preços populares tem claras intenções para com a cultura - o que não é o caso do Brasil, infelizmente.
Alvin Ailey é uma companhia vibrante, sensual, com programas claramente politizados - e tudo excepcionalmente bem executado. Ainda acho a platéia brasileira econômica em aplausos neste tipo de programa,e  a impressão que tenho é que se fosse qualquer cantora de axé ou alguma nulidade neo-sertaneja e a casa viria abaixo. Mas...
Voltando. Alvin Ailey é uma companhia que dá prazer. Não apenas o prazer visual - nisto Momix e Pillobolus são mestres. Não somente o prazer da qualidade da coreografia e do corpo de ballet, mas uma junção inexplicável de força, sexualidade, lirismo e empatia. 

(essa coreografia, Minus 16, era simplesmente arrebatadora)
O local do espetáculo ontem decididamente não ajudava, uma verdadeira vergonha expor uma companhia deste quilate a este tipo de arquitetura. Nosso Museu Municipal seria o local perfeito, mas o calendário desta casa é bissexto em todos os sentidos - tanto na qualidade quanto na frequência. O equivalente a esta situação seria servir o excelente foie-gras de Erick Jacquin na feira da praça Benedito Calixto aos sábados, entre o cheiro do acarajé frito e a fumaça da barraca do pastel. 
E falando em pastel - caloria que provavelmente os corpos dos bailarinos desta companhia nunca viram - ontem foi dia de pastel aqui em casa. Mas não aquela coisa imensa, cheia de espaço desocupado dentro de suas paredes, e sim a versão pernambucana deste, com carne moída bastante temperada, frito em óleo de girassol e polvilhado com açúcar. Uma fina iguaria, assim como o espetáculo de ontem. Apenas mais calórica.
Pastel de Carne Pernambucano
300 gramas de patinho moído
1 cebola finamente picada
3 dentes de alho finamente picados
1 colher de café de cominho 
1 pimenta dedo-de-moça
1/2 pimentão verde pequeno finamente picado
50 gramas de azeitonas verdes sem caroço
1 tomate sem pele nem sementes
1 colher de sopa de cebolinha picada
1 colher de sopa de salsinha picada
Refogar a cebola até murchar. Adicionar o alho e a pimenta picadinha sem as sementes (estas deixam muito mais ardido). Acrescentar a carne moída, mexer até que toda ela adquira cor. Acrescentar o tomate, o pimentão e as azeitonas, continuar mexendo. Coloque sal a gosto e pimenta do reino moída. Deixar em fogo baixo, acrescentar o cominho, a cebolinha e a salsinha. Corrija o sal se necessário, desligue e espere esfriar para rechear os pastéis. 
A massa de pastel eu uso esta DAQUI, da Akemi, uma blogueira com receitas fantásticas. E ela é daquelas que usa cachaça na massa - outra coisa que seguramente os bailarinos do AAAD não consomem...
Recortar a massa em círculos de aproximadamente 10 cm de diâmetro. Rechear, fechar as pontas e marcar com um garfo. Depois de recheados, fritar em abundante óleo quente - com cuidado para não queimar a massa. Colocar no papel absorvente e polvilhar açúcar com uma peneira. Sirva com um potinho de pimenta ao lado.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

delicadezas

Escrevo o duocentésimo post deste blog sob a influência de duas surpresas que tive hoje. Primeiro, recebi pelo correio uma delicadeza - um livro de uma leitora, a Mia. Além de frequentar as páginas daqui e deixar sempre mensagens de altíssimo astral, ainda me presenteia com um livro de tema delicioso. Ainda não o li, mas enquanto escrevo isto a caneca de café exala seu perfume forte e quente ao meu lado, e como são quase onze horas da noite, já prevejo um dormir tardio mas embalado pela nova - e provavelmente ótima - leitura.

Ontem foi um dia tenso, uma noite tensa, acordei de modo tenso e assim seguiu o dia. Mas de repente, no final da tarde, recebo um envelope azul com remetente de Brasilia - adoro presentes, amo livros - e o dia começou a melhorar.
Ao voltar para casa, mais ou menos oito e meia da noite, ligo para minha comadre. Quem atende ao telefone é Gabriel, seu filho de completos 5 anos, espertíssimo e muito, muito sociável. A esta altura dos acontecimentos já esclareço - adoro este menino. Além de ser extremamente inteligente e dono de um carisma absurdo, ainda é encantador em todos os sentidos. Voltando - Gabriel atende ao telefone. Pergunto como ele está, e ele me responde que está na cama, se preparando para dormir. Num bate papo rápido, descubro que ele jantou "macarrão e carninha", e em seguida passa o telefone para a mãe. Liguei na hora em que ela estava lendo O Livro dos Sentimentos para ele,
e sou convidado a participar desta leitura através do telefone, e ficamos os três durante alguns minutos falando sobre o livro - ou melhor, lendo o livro juntos!- ela fazendo as perguntas do texto, eu e Gabriel respondendo e interagindo.
Sabe aquele clichê do "momento mágico"? Pois é...eu no trânsito ainda pesado apesar do horário, ligo só para saber das novidades e sou presenteado com uma situação que tenho certeza (apesar dos assustadores buracos negros em minha memória) vou me lembrar para sempre. Daqueles momentos em que a gente se lembra do nada, volta rapidamente no tempo, ri sozinho na fila do pedágio, conta no futuro, etc.
Cheguei em casa mais leve. Um copinho de uma excelente cachaça 
- eu precisava continuar neste estado de graça. E baseado no conceito da simplicidade dos sentimentos do qual fora vitimado, rapidamente transformei 4 ovos em uma simples e fofa omelete. Refoguei brócolis em pedaços minúsculos com um ótimo azeite e bastante alho, misturei-o com o arroz basmati que havia feito ontem e em minutos tinha um arroz verdinho e meia omelete em meu prato, acompanhado de uma cerveja gelada. Ouvia Blackbird na versão de Brad Mehldau. Eu não precisava de muito mais hoje. Já havia ganho o dia.
 (escrito em 18/09/2013)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

back to 80's

Domingo à noite, e eu transformando os restos de um bacalhau do almoço de sábado em uma torta para o jantar de segunda - puro Lavoisier. O fato é que detesto desperdícios, e descarto de minha cozinha apenas e essencialmente o que é para ser descartado. Aquela história de utilizar "somente a parte branca do alho-poró", por exemplo, não cola comigo. Então juntei palmito, cebolas, cenouras, aipo, batatas, pimentão, refoguei com azeite, acrescentei o bacalhau, fiz uma rápida massa podre e coloquei para pré-assar uma torta com bacalhau (não confundir com torta de bacalhau, se é que você me entende). Seria consumida na segunda, e realmente o foi. Ficou muito boa, mediterrânea e bastante calórica.
E, para variar, o play list de meu laptop - fiel companheiro nas noites de cozinha - me prega peças. Toca "Toda menina baiana" (veja AQUI) de Gilberto Gil, e minha mente - sem nenhum aditivo químico, diga-se de passagem - voltou imediatamente à primeira metade dos anos 1980, eu começando a conhecer meio que tardiamente a noite paulistana. Por questões particulares, decidi me empenhar nos estudos e trabalho muito cedo, para cedo ter minha independência financeira (se seu soubesse que anos depois estaria fazendo contas no final do mês tinha aproveitado mais...), e não tinha tempo nem grana para sair com frequência. E quando comecei a fazê-lo, o point (ainda se usa esta palavra?) era o OFF, um diminuto clube noturno no Itaim, frequentado pelos amigos e por gente legal. Um pequeno espaço no térreo de um prédio, muito charmoso e elegante (pelo que eu me lembro, claro...), dividido em duas partes - uma, a "pista" propriamente dita, um semi-círculo circundado por uma espécie de arquibancada cujo teto abobadado ostentava uma cascata de pingentes de acrílico, de belo efeito. Neste espaço dancei muito, assim como vi shows de gente "nova" como Emilio Santiago e outros emergentes da MPB. O outro lado era o bar propriamente dito, composto por um balcão com barmen atenciosos e mais uns sofazinhos e mesinhas, para a gente paquerar conversar facilmente. Neste lugar, criado por um grande agitador cultural - Celso Cury - passei noites paquerando, bebendo com amigos e ouvindo uma trilha sonora deliciosa - da qual a música citada fazia parte. E foi neste local que eu tive uma tardia paixão adolescente, um grego de nome Christos. Era bonito, alto, voz grave e fã de Nina Simone, mas eu nunca levei muita fé em Christos (não podia deixar passar este trocadilho infame...) apesar da confessa paixonite. E ele me apresentou a um restaurante da colônia aonde íamos com sua família quase todo final de semana, no triângulo entre o final da Artur de Azevedo e a Faria Lima. Entre quebras de pratos, doses cavalares e fatais de Ouzo e danças típicas como esta (demorei para pegar a "coreografia", mas depois entrei no ritmo)
tomei gosto pela culinária grega. Faço até hoje uma moussaka de categoria, viciei no iogurte grego que finalmente chegou por aqui, e meu tzatsiki pode remeter a tempos imemoriais -  mais ainda do que as noites no Off nos longínquos anos oitenta.
(em algum lugar já existe pronto - mas qual é a graça?)

Tzatzkiki
2 pepinos sem casca nem sementes
250 ml iogurte integral
1 punhado farto de endro (dill) bem picado
2 dentes de alho grandes
1 colher de café de suco de limão
azeite a gosto
sal 
pimenta do reino moída na hora
Picar os pepinos em cubinhos minúsculos. Deixar escorrendo por meia hora em uma peneira. 
A parte, misture o iogurte com o azeite, limão, a pimenta moída, o alho amassado e microscopicamente picado e o endro. Incorporar todos os ingredientes até que o molho fique homogêneo. Acrescentar os pepinos picados, colocar na geladeira em recipiente fechado por uma hora antes de servir. Servir com pão rústico ou pão sírio - pode ser utilizado como um excelente molho de salada de batatas ou acompanhando um filé de peixe grelhado, também.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

palavras - ou almoçando fora

Estava em Recife semana passada, em um bar à beira-mar. O mar a frente era uma faixa negra junto a um céu negro, quando comecei a escrever este post. A trilha sonora do lugar era absolutamente insólita - já havia tocado Janis Joplin em uma interpretação "samba" (como conseguiram?), uma versão também pandeiro e violão de um rock de Raul Seixas, um assassinato de I Feel Good com cuíca e cavaquinho e mais uma montanha de gente estranha em versões idem. Mas em minha cabeça ecoava uma frase de Alceu Valença, que diz "lembro o flamboyant vermelho no desmantelo da tarde...". Pode ser mais bonito? Chico Buarque é outro que me irrita, com o uso de palavras lindas e inusitadas em seus versos perfeitos. Ou meu deus particular, Gilberto Gil (...eu quisera ter tantos anos-luz quantos fosse precisar, para cruzar o túnel do tempo do seu olhar...), em suas imagens de inigualável teor poético. Um poeta, escritor ou compositor de fato tem que ter o domínio de sua língua, como estes mestres. E saber como e quando usar palavras como quebranto, centelha, colo, corsário, clarear, vagarosa, impoluto, retilínea, benzedeira, elegia - e mais um infinito universo de palavras belas. 
Uma semana depois, estou em casa na minha cozinha negra como aquele céu, mas com um sol brilhando lá fora. Ouvia Cole Porter e lembrei daquela situação - Cole é outro daqueles mestres em construir frases perfeitamente inusitadas ("...even lazy jellyfish do it...) ou imagens quase fotográficas ("only you beneath the moon or under the sun...") em suas músicas. Da mesma forma, alguns chefs dominam seu vocabulário - no caso os ingredientes - e constroem pratos fantásticos, originais, únicos. Admiro quem consegue utilizar barba de milho numa receita construindo um prato singular e perfeito, assim como Chico fez utilizando proparoxítonas para terminar todas as frases da linda Construção, de tal forma perfeitas que podem ser substituídas ao longo da letra sem prejuízo da poesia. Mas nem sempre precisamos de palavras complexas para construir frases lindas como esta,
 Carlos Drummond de Andrade
ou de ingredientes sofisticadíssimos e técnicas de cocção complexas para o prato perfeito. E hoje neste dia solar, repeti "de lembrança" uma receita de Chicken Salad que experimentara há muito, em Nova York, e ela ficou à altura da original, apesar de minhas liberdades com os ingredientes. Um Pinot Grigio gelado e o dia claro me inspiraram a levar o almoço para o terraço, levando o termo "almoçar fora" a uma literal interpretação.


Enquanto terminávamos o segundo prato - uma pasta com legumes grelhados,

ao fundo, Maverick Sabre 

derramava sua voz estranha em versos simples, palavras simples, e a tarde lentamente se deixa seduzir pelas cores da noite, exibindo um céu em tons de verde-malva, magenta,  carmesim e uma fina faixa azul-cerúleo. Um céu feito de belas palavras.
Chicken potato salad (para 2 pessoas)
meio peito de frango cozido e desfiado
200 gramas de batata bolinha
1 cebola grande
1 alho poró
8 azeitonas verdes picadas grosseiramente
1 punhado de salsinha picada
1 colher de sopa de coalhada seca
azeite a gosto
1 colher de sopa de raspas de limão
1 colher de chá de mostarda
1 colher de chá de suco de limão
Corte as batatas ao meio e cozinhe com casca, não deixando extremamente cozidas. Pique o alho poró em fatias finas, coloque num bowl e adicione as batatas cozidas ainda quentes. Enquanto isto, refogue a cebola em azeite até quase queimar. Misture a coalhada, o suco de limão, a mostarda, pimenta do reino moída e azeite. Adicione este molho às batatas, acrescente os ingredientes restantes, misture e sirva ainda ligeiramente morno.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

ventanias

O vento sopra insistente, insistente demais para o meu gosto. Claro que eu podia ter optado por sentar na parte interna do restaurante, resguardada, mas decidi ficar na varanda, sentindo o cheiro da maresia e ansiando pelo surgimento da lua neste começo de noite escura. As palmeiras balançam sob esta ventania, e nenhuma estrela ainda apareceu no céu.
A caipirinha está muito bem feita. Cachaça local, um tantinho de açúcar, desce mais fácil do que deveria - o que pressupõe uma sequência, coisa que não estava em meus planos hoje.
Chegaram os pastéis - pequenos, delicados - de bacalhau. Acompanha uma desnecessária - porque mal executada - tapenade de azeitonas pretas. Pelo fato de ser uma receita simples (e que pessoalmente executo com imodesta maestria), me incomodo um pouco, mas não o suficiente para atrapalhar este lonely happy hour. Para os pastéis, um tico de pimenta faria uma brutal diferença, mas tem gente que gosta, tem gente que não gosta, portanto...

A lua, preguiçosa, ainda não deu sinal de sua presença. Ou será que ela apareceu e eu estou olhando para o lado errado? Nenhuma estrela no negro celeste, e o vento insiste em ser presença dominante. O vento é um macho alfa, concluo.
As pessoas à minha volta falam um pouco alto demais para o meu gosto, mas é característica local, vozes exacerbadas, cujo combustível são garrafas de whisky Red Label, fazendo desta capital a maior consumidora deste destilado no Brasil.
A segunda caipirinha chegou, e por sorte não está tão boa quanto a primeira O que me deixa tentado a experimentar uma terceira, para ver se foi sorte ou se o o barman é realmente talentoso. Essa minha predileção pelos números ímpares ainda vai me causar uma cirrose...
Mesclado aos sons da rua, uma deliciosa versão new something de de Ella Fitzgerald invade a varanda - aleluia, ligaram o som. Não sei quem remixou sua gravação de Angel Eyes, mas ficou...wow!
Uma menina, pobre figura, acompanhada de um gringo de visual decadente, ambos sentados à minha frente, se oferece acintosamente para mim. Triste figura, tristes trópicos...
Começa a tocar Everything But The Girl, uma música que me é especial.

Não vejo a hora de voltar para casa.


terça-feira, 27 de agosto de 2013

de mimos

Duas experiências distintas com um denominador comum - a atenção ao cliente.
Perto do GabineteD, nosso novo projeto (já falado aqui), descobri alguns restaurantes bem agradáveis, que desconhecia. Foi o caso do Mimo Restaurante.Tive uma experiência típica de cinema, da primeira vez em que fui a este restaurante - comia a saladinha de entrada, quando recebi um telefonema e tive que sair no meio do almoço, deixando o prato principal (um peixe com acaçá e molho de moqueca) com muita dor no coração, mas o dever me chamava e eu tive que sair na hora mesmo. Ficou a vontade de voltar, pois os pãezinhos e a salada fresca prometiam um cardápio bem executado. E voltei e não me decepcionei. De início, me ofereceram um "mimo" - bolinhos de tapioca fritos, crocantes e bem gostosos. Pediam um recheio mais contrastante, mas foi um mimo simpático. Escolhi o cordeiro, temperado com zattar, intercalado com fatias de berinjela e cevadinha, coalhada seca e um molho de tahine e hortelã tão bom que quase peço um pote para levar para casa. O prato combinou perfeitamente com a Guinness, forte e potente.
(foto retirada do site do restaurante)
De sobremesa, ousei (uso este verbo por que depois do prato principal e dos pãezinhos, mais a cerveja, sobremesa era uma ousadia calórica) pedir a degustação de Brulées : três potinhos lindos com o creme brulée nas versões Tradicional, Tonka (uma espécie de baunilha, porém mais amendoada - deliciosa) e Lavanda. Todos os três perfeitos, com a versão Tonka se sobressaindo. A conta foi acima da média para um almoço de terça-feira, mas valeu cada centavo - a decoração, o atendimento e o público bonito reforçavam as boas características deste lugar.
Passados dois dias, eu pensava em voltar a este lugar quando me deparo, no final da Pamplona, com um restaurante sem nome visível que oferecia Dobradinha com feijão branco. Meu apreço pela heavy-gastronomia atiçou minha falta de bom senso coragem, e entrei naquele espaço desprovido de glamour e requinte. Mas a dobradinha chegou quentíssima, em uma farta cumbuca de barro - e excepcionalmente bem feita, temperos, feijão e carne na medida certa. O arroz era simples, a salada dispensável e a coca-cola de garrafinha acompanhavam um almoço baratíssimo - 15% do valor do almoço de dois dias antes. De mimo, me deram duas balinhas de hortelã. O serviço era muito atencioso e profissional,  e embora o mimo do primeiro fosse insuperavelmente mais complexo que o do segundo restaurante, a intenção foi válida. 
Platão pregava "a vida inteira precisamos de graça e gentileza."
Concordo com o grego... Agora, próxima etapa - dois dias de regime.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

de sardinhas e outras lembranças

Sardinha geralmente é um peixe desprezado, apesar de ser riquíssimo em ômega-3. Vejo montanhas de pessoas pregando as qualidades do salmão, quando sabe-se que nos criados em cativeiro, a cor lhes é conferida administrando corantes(artificiais, claro) à sua alimentação. Mas ninguém se dá ao trabalho de pedir sardinhas num restaurante, e em alguns raros que ousam nesta praia - como no Tappo Trattoria, que serve uma excelente Pasta Con Le Sarde - quase nunca vejo comensais solicitando este prato. Eu adoro, e das raras lembranças que tenho de meu pai, várias envolvem uma mesa de almoço num sábado a tarde, copos de caipirinha e pratos com azeitonas diversas, queijos, embutidos, pães e uma travessa farta de salada de sardinhas portuguesas com cebolas, tomates e muito azeite.
Por causa da opção arquitetônica de minha casa, cuja cozinha é totalmente aberta para a sala, evito frituras de toda ordem - portanto sardinha frita empanada no fubá, iguaria fina que adoro, não entrou em meu cardápio ainda. Mas recentemente estive na peixaria perto de casa que ostentava belíssimos camarões, postas fresquíssimas de dourado, vôngole limpínho e - voilá - suculentas e carnudas sardinhas. Não resisti, tive que comprar. Levei um susto com o preço -R$ 14,00 o quilo, já evisceradas e limpas, muito barato. Comprei um quilo, já pensando em repetir a pièce de résistance de uma tia que cozinhava muito bem, mas que não me legou nenhuma receita, pois tudo ela fazia de cabeça. Portanto, fui me arriscando para fazer o prato pelas lembranças, e se não ficou igual, ficou muito parecido. Mediterrâneo, saudável, barato e visualmente lindo. Acompanhou um bom e fresco Chardonnay,
 uma saladinha simples e fatias de pão rústico. Boas lembranças, bebida fresca, comida boa, saudável e ainda por cima light - não precisamos de muito mais que isto. Apesar de que um Aston Martin na garagem me deixaria muito feliz também...

Sardinhas a escabeche da Tia Luiza
1 quilo de sardinhas limpas
1 limão Tahiti
3 cebolas grandes
2 dentes de alho triturados
1 pimenta dedo de moça
3 tomates não muito maduros
1 pimentão amarelo
200 ml de vinagre de vinho (usei um ótimo vinagre de champagne)
200 ml de azeite de oliva virgem
4 folhas de louro
sal e pimenta do reino moída a gosto
Temperar as sardinhas com limão, um pouquinho de sal e o alho. Reservar por 15 minutos.
Numa panela de fundo grosso, colocar um fio de azeite e montar uma camada de cebolas, uma de tomates com a pimenta e os pimentões, uma de sardinhas. Repetir as camadas de forma harmônica, terminando com as sardinhas. Derramar delicadamente o azeite e o vinagre, colocar as folhinhas de louro, acertar o sal e a pimenta, tampar e cozinhar em fogo médio por aproximadamente 15 minutos, e mais cinco minutos no fogo mais alto para "secar" um pouco o líquido.
Pode ser armazenado na geladeira por até uma semana.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

o rei da cocada

Adoro coco, e ainda mais cocada. Sei, é calórico, é ultra doce, se acumula diretamente nos seus pneus sem dó nem piedade, e só sai dali na lipo heavy metal, pois não há aeróbica que elimine a as calorias desta sobremesa. 
Quando criança morei em Santos, litoral paulista. E em São Vicente, num lugar chamado de Biquinha, tinha um monte de carrinhos de metal oferecendo todo tipo de cocadas, brigadeiros, beijinhos e outros doces desta monta, e era um programa ir até lá para comer isto (os tempos já foram bem menos sofisticados e pretensiosos...). E eu adorava uma cocada de fita, feita com a fruta cortada em tiras largas, ainda com a "casquinha" marrom do coco por cima, era uma beleza. Não sei e nem quero saber a quantidade de açúcar que ia naquele prato, pois se eu contabilizar isto vou ter ataques súbitos de diabetes.
Como alguns gostos mantenho desde criança (como tomar Carpano - que, sorry - aprendi criança, ou provar o molho de tomate com um pedaço de pão), a cocada me acompanha até hoje. E decidi esta semana realizar esta preferência em casa. Tinha visto uma receita da Carla Pernambuco rapidamente, e decidi repetir. Claro, comecei com um dois, três... pequeno drink - suco de maracujá com vodka, simples e refrescante, pois sabia que ia aguentar um fogão quente.

(minha cozinha é dark mesmo, sorry...morro de inveja de quem posta fotos solares - as minhas parecem feitas pelo Conde das Trevas)
Sabe daquelas sobremesas simpáticas? Pois é, esta é uma delas. Já pensei em variações (com queijo serra da Canastra, que ganhei recentemente, com gengibre, com pimenta dedo-de-moça) e sei que todas estas variações em breve estarão circundando minha cintura. Tudo isto porque eu decidi ser  hedonista, em vez de ser magro...
Cocada de Forno
500 gramas de coco ralado fresco
500 ml de água de coco
2 colheres de açúcar
2 colheres de manteiga
1/2 fava de baunilha
4 ovos
1 e 1/2 xícaras de açúcar

Faça uma calda fina com a água de coco e 2 colheres de açúcar. Quando estiver meio em ponto de fio, adicione o coco ralado e mexa até reduzir a calda metade. Adicione a manteiga e a baunilha (raspe a baunilha do interior e também coloque a fava inteira, que será descartada posteriormente), mexa e reserve.
Bata os ovos com o açúcar restante até ficarem fofos. Retire a fava de baunilha e adicione lentamente à mistura de coco esfriada, e volte ao fogo baixo, mexendo sempre até dar liga (demora uns 15 minutos mais ou menos).
Coloque numa forma refratária untada com manteiga e leve ao forno pré-aquecido a 160° por aproximadamente 15 minutos, o até que esteja dourado na superfície como na foto abaixo, sem ressecar.
Servir em formato de quenelles, mas também pode ser feito em potinhos individuais - o que provavelmente acontecerá em casa, na próxima festa grande.
Este prato está um pouco mais "cheinho" do que manda a elegância, mas foi feito para o autor deste post, cada vez mais preocupado com a silhueta (só que não...).