food, art & spirits

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quinta-feira, 10 de março de 2011

COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO

Perdemos tempo. Perdemos dinheiro. As vezes perdemos os dois...
Perdemos cabelo, a forma, perdemos o peso (não no meu caso, infelizmente...), perdemos o trem da história, a oportunidade do beijo roubado, a chance de ganharmos sozinhos na mega-sena...
Perdemos o show que queríamos ter visto, aquela exposição que rolou e você adiou, adiou e acabou não vendo, perdemos a paciência, a inocência...
Para quase toda perda existe um paliativo. Perdemos a forma? Academia, plástica, personal trainer.
Perdemos cabelo? Implante, peruca ou um look Lawrence da Arábia, turbante enrolado e muita pose para sustentar isto. Perdemos tempo? Dá até para recuperar alguns momentos.
Mas para uma coisa não temos substituto. Para a perda da lembrança.
Pensei nisto anteontem, quando fiz de almoço uma prosaica salada de sardinhas com tomates,
azeite, pimentão e muita cebola, para ser comida com fatias de pão grelhado e um bom vinho branco.
Estava muito boa, fresca, tempero na medida certa. E era uma pequena homenagem a meu pai, que sempre a fazia aos domingos, prenunciando o almoço. Entre copos de caipirinha e limonada, este prato era um elemento perfeito para a boa conversa, risadas soltas e largas, enquanto na cozinha minha mãe terminava um assado, ou uma massa, o que fosse - mas a salada de sardinha era quase obrigatória, comida entre nacos de pão fresquinho , que usávamos para absorver o caldo/tempero no fundo do prato.
Executei a salada com todo cuidado, não incluindo nada que não pertencesse à receita original, respeitando a medida de azeite e vinagre, o pouco sal e a pimenta moída na hora. Mas algo se perdeu neste tempo - e creio, não era uma questão de decilitros de azeite ou gramas de cebolinha. O que se perdeu foi a lembrança dos domingos despreocupados, do som da risada de meu pai, do calor de seu afeto, que provavelmente imbuiam algum gosto ao que ele fazia.
Não há substitutos para a perda da lembrança. Mas, por sorte temos a oportunidade de sonhar e criar -inclusive o que esquecemos.




SALADA DE SARDINHAS
2 latas de sardinhas em conserva no azeite de primeira qualidade, sem pele e sem espinhas
2 tomates caqui não muito maduros, cortados pela metade e depois em fatias
2 cebolas grandes cortadas pela metade e dsepois em fatias finas
1 pires raso de cebolinha picada
12 azeitonas pretas portuguesas
30 ml de azeite de oliva virgem
10 ml de vinagre de vinho tinto
pimenta do reino moída na hora
sal a gosto
Misture tudo, despedaçando ligeiramente os filés de sardinha, e sirva com torradas de pão integral.

6 comentários:

  1. uau! que tudo esta receita.Vou testá-la já.

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  2. Wair, não se perdem!
    Ao contrário, perduram, estão sempre na lembrança, tanto que você fez a salada e compartilhou a história com a gente.
    Propagam-se também, quer ver?
    No próximo week-end, vou fazer a receita da salada de sardinha do pai do Wair!!!!
    BJK
    Mia

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  3. Wair, eu fecho com a Mia.
    =)
    Katita
    (Pitéu - cozinha afetiva)

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  4. Parece-me que estamos mergulhados no passado. Acho que fugindo de algo (pelo menos no meu caso!!).
    Abraços,
    Bergamo

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  5. Off Post
    Wair, quero fazer a "receita da Sardella da minha avó", para presentear amigos também. Você registrou que, de um dia para outro, a iguaria deve ficar num recipiente hermeticamente fechado.Nessas condições, quantos dias o recipiente pode ficar fechado na geladeira, sem comprometer a qualidade do produto?O recipiente deve ser esterilizado antes? É claro que vou fazer e entregar em seguida, mas não saberia responder se me perguntassem sobre a obrigatoriedade do consumo imediato, além do mais, não queria pagar o mico de presentear os amigos com algo fora do prazo, e ainda, "castigar" receita repassada por você, sobretudo, por ser da vó, sagrada!
    Desde já agradeço
    BJK
    Mia

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  6. O tom desse texto é melancólico?

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